DATA - A arte de dar presentes
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de dezembro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - No já distante século 16, na Inglaterra, a rainha Elisabeth já recebia tantos presentes nas habituais festas natalinas que promovia que passou a montar uma árvore nos jardins do palácio real para que os objetos fossem depositados ali. Foi assim, na versão de alguns historiadores, que surgiu o costume de colocar presentes embaixo da árvore de Natal. Séculos depois, o costume persiste, o problema é saber o que colocar debaixo da árvore para agradar parentes e amigos. Está certo, o que importa é a lembrança, mas nada como evitar eventuais decepções. Na dúvida, o conselho é prestar atenção nos detalhes. Qualquer dica que a pessoa a ser presenteada venha a dar é uma informação importante e deve ser levada em conta.
A Folha ouviu alguns artistas que deram sugestões de presentes para este Natal. Livros, discos, DVDs, objetos artesanais e até surpresas que podem agradar ou decepcionar quem não está muito disposto a brincadeiras fazem parte da lista. O músico Alexandre Nero, vocalista do grupo Fato, por exemplo, sugere presentes criativos para quem não quer (ou não pode) gastar muito nesse Natal. ''Eu gostaria de ganhar uma viagem à Patagônia, já para presentear a opção não pode passar de R$ 10 porque não gosto de gastar muito em presentes'', brinca.
Nero conta que já chegou a dar um coco para um amigo que gostava muito de doces e iguarias feitas com a fruta. ''Eu não gastei praticamente nada e ele gostou muito, porque foi um presente divertido e que tinha a ver com ele'', diz. Mas presentes assim, funcionam mais com amigos, conforme argumenta o músico, já que é mais fácil conhecer o gosto de quem está próximo. Se a intimidade com a pessoa presenteada não for muito grande, Nero também dá sugestões que prometem não pesar no bolso. ''Nesse caso eu dou o meu CD ou CD do Fato que não me custa nada e ainda faço uma publicidade'', brinca.
O músico Vitor Hugo Gorni gosta da tradição de trocar presentes no Natal. Integrante da Orquestra Sinfônica da UEL e da Londrina Big Band, diz que o seu gosto pessoal por música influencia diretamente quando decide comprar um CD de música para os amigos. ''Às vezes, dou até estilos que eles não gostam muito, e deixo a recomendação que eles 'aprendam a gostar''', comenta o músico, que destaca que a sua profissão facilita a distinção do que é realmente boa música e o que é vendido como tal pela mídia. ''Se pudesse, gostaria de dar de presente para todas as pessoas pelo menos uma hora de audição de música de qualidade'', afirmou.
Neste ano, ele já recebeu, adiantado, o presente de Natal da sua mãe. Uma lupa e uma caixinha de remédios. ''Achei muito engraçado e esquisito. Não estou tão velho para isso'', brincou Gorni, de 48 anos. Ele confessa que também já deu presentes ''diferentes''. Uma vez, para fazer uma brincadeira com uma cunhada ''excessivamente vaidosa'', ele a presentou com um par de chinelos brega e uma bolsa, no mesmo estilo. ''Ela disse que adorou, mas nunca usou'', lembrou. ''Mas, o que importa, é aproveitar este momento para ficar perto das pessoas que a gente gosta. Não apelar para o consumismo, e, sim, para o coração.
A atriz e produtora curitbana Regina Vogue, antes de indicar qualquer presente, faz questão de ressaltar que o objeto em si não importa, ''o que importa é a lembrança e a forma como o presente será dado''. Para Regina, se a pessoa for lembrada, o espírito natalino cumpriu o seu papel. A produtora não cita nada específico para as sugestões de presentes nas festas de final de ano, mas dá dicas interessantes para quem não quer decepcionar. ''Para uma mãe, por exemplo, não se deve dar coisas de casa'', ensina, contando uma experiência recente. ''No meu aniversário eu ganhei um DVD. Eu adorei, mas sabia que o presente não era para mim, todo mundo ia aproveitar'', diz.
Regina ressalta que mães, namoradas, noivas e mulheres em geral gostam mesmo é de receber jóias. ''Pode até ser uma bijouteria, mas é um presente só para elas.'' A dica não é tão diferente assim quando se trata da ala masculina. ''Camisas, meias, lenços, tudo aquilo que for relacionado à pessoa. É só prestar atenção para descobrir o gosto.'' Na dúvida, Regina indica discos e livros. ''É sempre um bom presente. Eu, por exemplo, gosto de romances.''
Presentes feitos a mão também valem para quem não quer gastar muito, mas também não quer esquecer de ninguém. A designer Sônia Horn, costuma presentear parentes e amigos com as jóias de madeiras que produz. ''Para mulher é mais fácil, os brincos e pulseiras agradam, já para os homens, as gargantilhas e colares são boas opções'', sugere. Para ela, nessa época do ano, as pessoas ficam mais sensíveis e o que importa tanto não é o presente, ''mas a lembrança''.
A jornalista e artista plástica Regina Menezes sempre considerou um ''grande drama'' escolher presentes. ''Tenho uma dificuldade imensa para escolher e sempre erro muito'', confessou. Um exemplo que citou foi uma gata imensa de pelúcia com que presentou uma sobrinha alérgica a esse tipo de material. ''Foi um fiasco. Eu sempre soube que ela tinha esse problema, mas foi pela paixão e empolgação na hora de presentear. A gata era linda...'', disse. Este ano está contente e acredita que vai acertar. Ela vai presentear todo os familiares com jóias de criação própria que está lançando para compra sob encomenda pela internet. Eles gostaram tanto das peças enquanto estavam sendo criadas que queriam fazer encomendas. ''Assim, ficou fácil perceber as preferências deles. Saiu meio caro, mas valeu a pena. E, afinal de contas, sempre gastava muito sem conseguir agradar. Este Natal vai ser diferente'', comemorou.
Para quem está disposto a gastar um pouco mais nos presentes natalinos, o diretor teatral Edson Bueno e o cineasta Luciano Coelho dão dicas interessantes para quem quer ficar em dia com a cultura. Bueno, por exemplo, sugere a nova edição do livro ''Casa Grande & Senzala'', do sociólogo Gilberto Freyre. A obra-prima do autor, lançada pela primeira vez em 1933, foi relançada agora pela editora Global trazendo algumas surpresas. ''Eu já comprei três para presentear pessoas diferentes'', conta Bueno. Já para quem prefere um bom filme, o diretor sugere o DVD ''As Horas''.
Luciano Coelho também dá algumas sugestões de livros e discos que prometem agradar quem tem bom gosto. O livro ''A Arte de Viajar'', o mais recente de Allain de Botton é uma das dicas. ''Eu comprei para mim e sugiro para outras pessoas porque é muito bom, o autor reflete sobre o processo de viajar abordando vários outros autores clássicos'', analisa.
Independente do presente, vale mesmo é o desapego, O importante, como disseram os entrevistados, é ser lembrado e aproveitar as festas natalinas para confraternizar. Feliz Natal. (Colaborou Ana Paula Nascimento)


