Se você não foi, pelo menos já ouviu falar maravilhas do filme ''Cidade de Deus'', que em sua quarta semana em cartaz no país já ultrapassou a marca de um milhão de espectadores. A trilha sonora acaba de chegar às lojas com a missão ingrata de seduzir o público sem o apoio poderoso das imagens.
Uma rajada de tiros abre o disco, seguida da reprodução de uma das falas do personagem central: ''Dadinho é o c... Meu nome agora é Zé Pequeno, p...!''. Na sequência, entra um funk vitaminado com um naipe de metais em arranjo que embute cuíca na seção percussiva. Metade das faixas foi composta pelos maestros Antonio Pinto e Ed Côrtes, autores da trilha do longa ''Abril Despedaçado''.
A outra metade reúne músicas que tocavam nas rádios nas décadas de 60 e 70 (período enfocado no filme) garimpando sucessos como ''Na Rua, na Chuva, na Fazenda'' (Hyldon), ''Metamorfose Ambulante'' (Raul Seixas), ''No Caminho do Bem'' (Tim Maia) e ''Nem Vem que Não Tem'' (Wilson Simonal). Pinto e Côrtes seguiram o roteiro do filme dividindo o repertório também em três fases.
A primeira, dos anos 60, é baseada no samba de raiz privilegiando composições abençoadas pelo cavaquinho e o violão de 7 cordas. Cartola comparece, aqui, com os clássicos ''Me Encontrar'' e ''Alvorada'' pontuando a época da malandragem romântica. A segunda fase, do início dos anos 70, é calcada no funk-samba e nas canções que emplacaram nas paradas. E a terceira, remetendo ao fim dos mesmos anos 70, explora temas instrumentais sombrios. No disco, a ordem é de trás para frente.
Os dois maestros tocaram de tudo durante as gravações, incluindo vibrafones, guitarra e flautas ianomânis. Em ''Convite para Vida'', parceria com Seu Jorge (que interpreta ''Mané Galinha'' na tela), eles arregimentaram a Velha Guarda da Mangueira para fazer os vocais. Nas demais faixas, contaram ainda com os músicos Nahor Gomes (trompete), Sidney Borgani (trombone), Barba (cuíca) e Edmilson Capelupis (violão, violão de 7 cordas e cavaquinho).
A primazia é de instrumental orgânico, mas algumas composições trazem loops eletrônicos culminando no tecno ''Batucada'' que fecha o CD. ''Cidade de Deus'' segue arrastando grande público às salas. É assunto em mesas de bar. Nada como a trilha ao fundo para animar debates sobre ''estetização da violência'', ''ausência de contexto histórico'' e outros temas levantados pelo filme.

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