Das páginas do livro para a tela do cinema
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
Fernanda Brambilla<br> Agência Estado 
A mais de um mês da estreia, o trailer de ''Lula, o Filho do Brasil'' já incita o público para o que deve ser o longa mais caro da história do cinema nacional. Por trás da megaprodução de R$ 12 milhões, está a jornalista Denise Paraná, 43 anos, que fez da história do presidente sua tese de doutorado e convenceu Lula a abrir sua vida. O filme que vem aí, sob direção de Fábio Barreto, é todo baseado nas pesquisas levantadas pela jornalista.
Denise aproveita o momento para reescrever e atualizar seu livro antigo, nascido no doutorado que concluiu em 1995. Com o novo nome de ''Lula, a História do Filho do Brasil'', será lançado pela editora Objetiva no dia 13 de dezembro.
''Quando alguém falava do Brasil, a referência era 'o Brasil do Pelé'. Agora, é 'o Brasil do Lula'. As pessoas só não imaginam como foi que ele se tornou quem é.'' Lula não nasceu querendo ser político. Aos 22 anos, achava que tinha realizado todos os sonhos de sua vida, com um emprego fixo e a esposa grávida. Para abrir as memórias do presidente, Denise fez entrevistas com os seus seis irmãos.
A mulher que fez a vida de Lula ir para os livros pela primeira vez conta que teve dificuldade em fazê-lo falar. ''Ele dizia: 'Olha, Denise, já tenho muita gente puxando o meu saco. Não preciso de mais um''', diz a autora. ''Eu o convenci quando disse que queria saber como surge um cara assim.''
Denise lembra bem dos bastidores de suas entrevistas com o presidente. ''Uma vez, durante uma entrevista, ele foi me servir um copo d'água, parou e ficou encarando aquela água ali. Depois disse: 'Denise, essa água é mineral. É pura. Você não sabe o que é tomar água de poça no chão, barrenta, ao lado do gado'.'' O tom natural a desconcertava: ''E então, ele dizia: 'Eu gostava de botar o dedo no fundo, na terra para brincar com os caramujinhos'. E ria.''
Depois de muitos relatos, Denise pôde definir com clareza a importância de Eurídice Ferreira, a Dona Lindu, mãe de Lula, que deixou o sertão de Garanhuns (PE) e partiu com os oito filhos em um pau-de-arara para São Paulo. ''Lindu era uma mulher de extrema coragem e um senso apurado de justiça, de generosidade'', diz Denise, que começou a entender a transformação de Lula com uma tragédia familiar.
''Quando ele perde no parto os dois, a primeira esposa (Maria de Lourdes) e o filho, ele fica tão perdido que não se opõe a ser levado ao sindicato. O político da família nunca foi ele, mas seu irmão (Frei Chico). Somente quando o irmão é preso e torturado é que ele se revolta e decide enfrentar a ditadura'', conta Denise.
A história de Lula respinga na realidade brasileira dos anos 40, 50, 60, 70 e termina em 1980, segundo a jornalista. ''É uma trajetória individual, mas segue a evolução de uma nação inteira. Lula não leu Karl Marx, Lenin ou outro clássico filosófico de esquerda. O mentor dele é uma mulher que pregava que o mundo devia ser bom. Existem milhares de Donas Lindus por aí, ela não é única.''
A controversa figura do pai de Lula, Aristides, também ajudou a construí-lo, ainda que às avessas. ''Lula não esconde a mágoa que guarda do pai. Era um despótico que proibia os filhos de qualquer prazer na vida. Não podia jogar futebol, tomar sorvete. Para ele, os filhos seriam sempre excluídos, não tinham que se alfabetizar.''
A autora se surpreendeu ao descobrir no passado da primeira-dama, Marisa Letícia, novas dores. ''Marisa se casa com um metalúrgico que faz um bico como taxista. Ele sofre um terrível acidente de carro e ela, também, se torna viúva. Ela e Lula só se conheceram quatro anos depois.''
No livro que será lançado em dezembro, a história virá romanceada e rebaterá as análises de que filme e livro serão uma poderosa arma eleitoral, já que sairão em ano de eleição. ''Ninguém sairá do cinema achando ter visto uma história de herói. A mensagem é a de Dona Lindu: de teimar e não desistir nunca.''
No filme de Fábio Barreto, Rui Ricardo Diaz faz o papel de Lula e Gloria Pires é Dona Lindu. O menino Felipe Falanga interpreta Lula na infância. Juliana Baroni, no papel da primeira-dama Marisa, e Milhem Cortaz, como o polêmico pai, Aristides, completam os papeis mais importantes na história.


