"Das Lagoas..." faz um mapeamento da música tradicional alagoana3/Mar, 14:51 Por Mauro Dias São Paulo, 03 (AE) - Vinte anos atrás, ele viu o desenho de uma rabeca, numa revista qualquer. Não conhecia o instrumento. Foi ao quintal, cortou uma árvore, moldou uma rabeca, começou a tocar. Hoje é mestre. Mestre Nelson da Rabeca. Tem mais ou menos 80 anos - ninguém ali sabe exatamente quando nasceu - e é um dos músicos atuantes no CD "Das Lagoas - A Atual Música Popular Tradicional de Alagoas", Volume 1. Trata-se do primeiro de - pelo menos - quatro discos que fazem o mapeamento da música tradicional, e atual, alagoana - a de canoeiros, pescadores, rendeiras, emboladores, rabequeiros, sanfoneiros, mestres e mestras octogenários, preservadores, porque essa é sua vida, da cultura oral. A música contida em "Das Lagoas..." nunca foi gravada - uma peça, eventualmente, pode ter chegado, por adaptação, a outros públicos. Nunca foi gravada por quem aprendeu com o pai e ensina ao filho, os habitantes das margens das lagoas em volta de Maceió - diz-se que o Sol nasce no mar e se põe nos 17 espelhos de água salgada que cercam a cidade. Música e os festejos ou trabalhos que as músicas animam ou incentivam, e as hitórias que elas contam, resultam da fusão das culturas dos índios caetés, de portugueses, holandeses, franceses, africanos - formadores do povo alagoano, que nada tem a ver com a República das Alagoas, de triste memória (e persistente presença), mas tem muito a ver com o alagoano Hermeto Paschoal, nascido em Lagoa das Canoas e de história de vida parecida com a de mestre Nelson da Rabeca. Também Hermeto fabricou seu primeiro instrumento. Mas saiu de lá, sanfoneiro adolescente, para o Recife, atrás de outro sanfoneiro albino, o paraibano de Itabaiana Severino Dias de Oliveira, dito Sivuca, um pouco mais velho e já famoso. A história do projeto "Das Lagoas" começou há dois anos, quando Davi Gatto, empresário do ramo hoteleiro de Maceió, resolveu criar um programa de fixação de memória. Encomendou o projeto à produtora e animadora cultural Márcia Accioly, alagoana que há 30 anos mora em São Paulo. Márcia pensou em trabalhar com as mulheres rendeiras, mas o resultado ficaria restrito ao livro. Pensou numa homenagem à obra de Hekel Tavares, autor de canções populares como "Guacira e Suçuarana" (respectivamente com Joraci Camargo e Luís Peixoto), mas, sobretudo, grande músico erudito. Mas a história de Hekel talvez ficasse erudita demais. Então, Márcia Accioly se deu conta de que há muito tempo - desde 1980, quando morreu o folclorista (um médico que trocou a medicina pelo estudo da cultura popular) Téo Brandão - nada se contava da história da tradição oral alagoana. Téo Brandão fez, durante décadas, importantíssimos registros - no entanto, registros de qualidade precária, pelos meios de que dispunha. Márcia Accioly viu que os mestres das festas populares estavam vivos, atuantes, cantando, dançando, ensinando. Convidou o músico paulistano Caíto Marcondes para fazer a direção musical. De microfones em punho, foram encontrar o povo das lagoas. Os músicos paramentaram-se para ir ao estúdio: os guerreiros com seus chapéus coloridos, de espelhos e brilhos, o divino puxado por mestre Manuel Venâncio, o pagode - ou coco alagoano -, que é dançado no barro, para amassá-lo e dar-lhe a consistência certa para a construção das casas. Benditos - E ainda os benditos e romances cantados por Benedita dos Santos, mulher de mestre Nelson da Rabeca, em trio com a sanfona de oito baixos de Mané Bento, a banda de pífanos de Santo Antônio, regida por mestre Olvídio, as emboladas de feiras nas vozes dos cantadores Olavo Pedro e Pitiguari, o reisado infantil da veneranda mestra Virgínia dos Santos, linda e colorida no alto de seus 94 anos. As gravações foram realizadas no final de 1988. Davi Gatto acompanhou cada etapa e, no entusiasmo, decidiu criar um selo fonográfico, também chamado Das Lagoas. No momento, está construindo um estúdio, em sua casa, para poder mixar os próximos discos sem ter de sair da terra - e de perto da música. "Das Lagoas - A Atual Música Popular Tradicional de Alagoas" teve uma tiragem inicial de mil discos. Um pesquisador norte-americano de música étnica da América Latina ouviu e levou uma quantidade de exemplares para um encontro de de música étnica realizado em fevereiro, na Flórida. Ao trabalho juntaram-se, espontaneamente, o pesquisador Ramilson França (mais um estudioso da cultura popular, também amigo dos mestres, que reúne numa sala, para programar festas, trocar idéias, saber novidades; para promover encontros, enfim), mais os pintores e desenhistas Lula Nogueira, Edgar Bastos, Tânia Pedrosa e Vicente Faria, cujos textos, pinturas e desenhos aparecem na capa e no encarte do CD. "Das Alagoas..." foi inteiramente bancado por Davi Gatto. Inicialmente, ele procurou as autoridades competentes em busca de financiamento. Esbarrou na burocracia, deu-se conta da demora, temeu o incerto. O disco pode ser comprado, em São Paulo, nas lojas Livraria da Vila (telefone 814-5811) e Arte Musical CDs (telefones 280-4213 e 282- 6321) ou pelo e-mail [email protected]). Cada exemplar custa R$ 15,00.