Dão, onde se desvenda o vinho
Antes que você se recupere das agradáveis surpresas da Rota do Porto, já é hora de aguçar o paladar para entrar na Região Demarcada do Dão que, dizem os portugueses, não é nenhuma modernice, foi instituída em 1908. E acrescentam: Visitar o Dão é encontrar os homens, pisar a terra, desvendar o vinho.
Isso se justifica porque o terreno acidentado, os minifúndios (quase 100 mil proprietários) e a exuberância de pinheiros e giestas são responsáveis pela paisagem. Lá não se distinguem as videiras. Do carro quase nada se vê, mas elas somam mais de 75 milhões, prova de sua importância para a economia local.
Entre as castas que caracterizam a viticultura da região estão as brancas Encruzado, Assario, Barcelo, Borrado das Moscas, Cercial e Verdelho. Nas tintas, Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto, Bastardo, Jaen, Tinta Pinheiro e Tinta Roriz.
Na Província de Beira Alta, no centro-norte de Portugal, a área tem dez quilômetros de extensão de Mortágua a Aguiar da Beira. Lagaretas escavadas nas rochas e vestígios da presença romana são prova da tradição milenar da produção do vinho.
Como uma quinta nunca é igual a outra, um tour é fundamental. E não só pelo vinho. Há muito de história. A Casa de Santar é considerada o coração da região do Dão tem entre 100 e 120 hectares. Fica em meio às Serras da Estrela e do Caramulo, onde o degelo da neve dá origem aos Rios Mondego e Dão. Jardins e adegas Solar do século 17, foi construído por três gerações e é marcado por granito e azulejos antigos e imensos jardins em forma de labirinto, que levam às adegas.
Há até um pequeno museu onde estão expostos os veículos da família desde as liteiras puxadas a mula e a bela Capela de São Francisco. A gastronomia da Beira tem forte influência conventual, em que o vinho serve para acompanhar e também para preparar os pratos. Para os gourmets, há pelo menos duas paradas obrigatórias: o Restaurante Clube dos Caçadores e o Curral da Burra.
No primeiro, em Muna, Viseu, além da caça (controlada, de perdiz, pato, avestruz, javali, veado, lebre, coelho e crocodilo), há receitas regionais. Peça de entrada orelhas de porco com picles, sardinha e morcela. Como prato principal, polvo à lagareiro, migas (feijão, broa, couve e azeite) e arroz de míscaros servido com vitela e batatas. Deixe para o dia seguinte a visita ao Curral da Burra, em Falorca de Silgueiros.
O cartão do restaurante já diz: quando chegar a Falorca, pergunte onde é o Curral da Burra. Todo mundo sabe. É ali que se come o famoso cabrito com batatas, assado na pedra no meio da rua, diga-se de passagem. E curral não é só um nome. No passado era isso mesmo.
Escavado na pedra, com uma porta e sem janelas, lá dentro não se sabe se é dia ou noite. A tradição pede que se deixe um bilhete pendurado no teto. O simpático proprietário, Antonio Paes, se encarrega de listar as celebridades que estiveram por lá. Incluindo Sônia Braga e Bruna Lombardi. Para lembrar no resto dos seus dias, prove o queijo da serra, cremoso por dentro.
Uma dica de hospedagem, a pequena Casa dos Gomes é uma propriedade rústica do século 18, em São João de Lourosa, zona urbana de Viseu. Entre quintas para degustações e compra de vinhos, conheça a Quinta dos Roques, Casa da Insua, em Penalva do Castelo e, em Carregal do Sal, a Dão-Sul e a Quinta do Cabriz. (M.A.R.L./AE)





