Daniela Mercury traz seu show "Elétrica" para SP
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quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Eduardo Elias 
São Paulo, 25 (AE) - Que blecaute, que nada. Energia não vai faltar, quando Daniela Mercury subir ao palco do Olympia, amanhã (26) e sábado, às 22h30. A cantora traz para São Paulo, pela primeira vez, "Elétrica", show com (quase) o mesmo repertório do disco homônimo, gravado ao vivo em Salvador e lançado no fim do ano passado. O foco está em seus maiores sucessos, as músicas mais dançantes. Ela vai bater no peito, dizer que é Ilê, falar do amor de Julieta e Romeu, assim por diante. E todo mundo vai dançar. "Sei que meu trabalho é recente, mas o CD é uma forma de pontuar minha participação num movimento da Bahia que teve início num trabalho bem-sucedido: O Canto da Cidade", diz Daniela, lembrando seu primeiro disco-solo, de 1992.
"Elétrica", o CD mais recente, traz também sete músicas inéditas. Os destaques do show são, além da faixa-título
"Cidade Festeira" e "Trio Metal", que viraram hits obrigatórios para os trios elétricos no carnaval de Salvador. No Olympia, Daniela vai cantar outras duas músicas que não estavam no repertório: "Canto Negro", do bloco afro Ilê Aiê, e "Milagres do Povo", de Caetano Veloso. Esta, por sinal, será a senha para o momento tranquilo do show. Hora de dar fôlego para o público e para a cantora - que dança ao lado de três bailarinos e canta acompanhada de nove músicos. Distorção - O tema eletricidade veio da idéia de proximidade entre o rock e a música baiana. São decibéis em profusão, mesclando o ritmo da percussão e a distorção da guitarra. Seja ela tradicional ou não. A própria Daniela, fã de Iron Maiden, é quem explica a homenagem a Armandinho, do trio pioneiro de Dodô e Osmar. "A guitarra baiana é um instrumento semelhante ao cavaquinho, que exige uma forma toda própria de tocar".
O show é, propositadamente, uma miscelânea de estilos. O palco faz lembrar uma discoteca. A concepção de Gringo Cardia, que incluiu no cenário muita cor e grafismos, é coerente com a iluminação do inglês Den Nola. Os figurinos são de Carlos Pazeto. Samba - Para alguém que canta até cem músicas por dia no carnaval, um show com 20 músicas e duas horas de duração não chega a ser exaustivo. Carnaval, aliás, que Daniela define como muito mais que um evento para dançar. "É um momento de afirmação de nossa cultura, porque estamos cantando as nossas coisas", diz. "E nossa música de percussão é muito interessante, por ser feita em grupo: é uma expressão de coletivo, de festa", continua. "Samba precisa no mínimo de duas pessoas, seja na escola de samba do Rio, no Olodum, ou num batuque de praia".
Ela rebate as críticas de que se repete em seus discos. Diz ser orgulhosa de seu samba-reggae. Mas pensa em gravar um CD exclusivamente de MPB. Quando o projeto vingar, deverá ser lançado por outra gravadora, uma vez que está deixando a Sony, pela qual lançou três discos. Europa - Em abril, a turnê "Elétrica" segue para Portugal, onde Daniela é rainha. Ali, o fado e Madonna ficaram para trás. "Feijão com Arroz" foi o disco mais vendido na história do país. Foram mais de 260 mil unidades: uma entre cada quatro famílias portuguesas tem o CD em casa.
O pai de Daniela, o imigrante português (naturalizado brasileiro) Antônio Ferreira de Almeida, vibra de orgulho. "Ele não poderia ter tido presente melhor na vida", diz a cantora. "Eu brinco dizendo que estamos devolvendo a colonização". Não chega a ser uma inverdade. Graças (principalmente) a Daniela
os portugueses sabem hoje o que é samba-reggae, galope, Olodum. No ano passado, ela tocou em estádios para mais de 40 mil pessoas. Também na França ela se destaca: já vendeu 300 mil discos. O sucesso no exterior foi planejado. A idéia é abrir mercado, para não depender exclusivamente da vida econômica brasileira. Daniela já fez quatro turnês pagando do próprio bolso. A hora é para desfrutar. "Quero viver cada segundo dessa conquista, tento cativar com a mesma garra do começo". Trânsito - Ela volta a lembrar o ano de 92, a explosão de "O Canto da Cidade". O show que virou símbolo dessa ascensão foi marcado, sem grandes pretensões, para meio-dia no Masp, em plena Avenida Paulista. Cerca de 30 mil pessoas fecharam o trânsito.
Mas a batalha havia começado muito antes, em bares, cantando na noite. Subiu num trio aos 15 anos: foi uma catástrofe. O som era péssimo e o empresário fugiu sem pagar o seu cachê. Ela insistiu. Foi backing vocal de Gilberto Gil e de Ricardo Chaves. Cantou na obscura Cia. Clic, banda com a qual lançou dois discos.
Vem dessa época a crença de que mulher pode fazer tudo o que os homens fazem. Aconteceu numa turnê da banda. "Briguei porque um deles se atreveu a dizer que eu não sabia dirigir", conta. Seu 1,62 de altura parece bem mais quando se enerva. "Disse que era eu quem ia dirigir a Kombi, a partir daquele momento". Só faltou dar cavalo-de-pau.
Hoje, há sete anos no topo das paradas, ela mantém o estilo mandão. Faz questão de comandar cada ensaio, tem voz ativa. Quer fazer o melhor possível. No Brasil, Daniela diz ter de matar um leão por dia. "A cada disco parece que você está começando tudo de novo", reclama. Nesse ponto, o ex-patrão Gil e Caetano Veloso são exemplos. "Eles estão sempre sintonizados com o que ocorre: quero no futuro ser como eles, com uma obra sólida e bela".
Ela também diz querer ajudar a diminuir as diferenças sociais no Brasil. Como embaixadora do Unicef, a cantora participou da campanha contra a exploração sexual de crianças e ensinou a fazer soro caseiro na TV. "Estou louca para fazer um projeto social em Salvador, que envolva dança e música", diz. "Três milhões de crianças trabalham no País: há muito o que fazer". Planos - Daniela pensa ainda em aceitar o convite para protagonizar um filme sobre Carmem Miranda. Diz que só precisa de tempo para se preparar. Sua experiência em atuação é mínima: fez dois anos de teatro de rua, na adolescência. "Cheguei a ficar sentada ao lado de um mendigo o dia inteiro, como laboratório", diverte-se.
Sua área é mesmo a música. E a dança. "Tenho controle da ponta do pé ao fio de cabelo, me comunico por meio do corpo"
diz ela, que também pretende publicar um livro, com os textos e poesias que escreve. Algumas, como "O Canto da Cidade" e "Vestido de Chita", viraram canções de seus discos. Ela, aliás
adora citar suas poesias: faz um ar grave, concentra-se e recita ou canta trechos das músicas. "Quando um de nós dança, é bonito de se ver, mas quando todos dançam, o chão balança", diz
com ar sério.
Na hora de escrever, um hábito é obrigatório: fumar. São pelo menos quatro cigarros por dia. Mas ela prefere não divulgar. "As pessoas podem achar que, se eu faço tudo o que faço, e continuo fumando, elas também podem". Daniela é mesmo elétrica.


