Daniela Mercury ousa em novo CD
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de março de 2000
Por Ricardo de Souza 
São Paulo, 22 (AE) - Nos últimos anos um fenômeno vem mudando a cara da música mundo afora. A erupção de ritmos eletrônicos atingiu gente como Madonna e grupos como o irlandês U2, dois exemplos mais que representativos do cenário musical internacional. O Brasil não escapou do raio de ação desse fenômeno. Entre os músicos que aderiram ao gênero está a baiana Daniela Mercury, que incorporou grooves e sintetizadores aos seus últimos discos. Mas em nenhum deles o resultado foi tão radical como em seu novíssimo CD, "Sol da Liberdade" (BMG), que inclui a música Ilê Pérola Negra", que já pode ser ouvida nas rádios.
O trabalho é, sem dúvida, o mais ousado da carreira de Daniela. Em pelo menos metade das 14 faixas do CD há uma predominância de batidas eletrônicas que escancaram um flerte que, segundo a baiana, já dura um bom tempo. "Fazia essa mistura de instrumentos tradicionais com ritmos eletrônicos em discos anteriores, como "Feijão com Arroz" (1997) e "Elétrica" (1999)", diz Daniela. "Sempre gostei de grooves; queria criar um diálogo mais intenso com isso, fazer um trabalho com várias direções."
A faixa de abertura do CD, "Sol da Liberdade", escrita por Daniela, ainda é um samba-reggae típico. A boa novidade é a participação especial de Milton Nascimento. "Foi um luxo contar com o Milton, ver um negro mineiro lindo cantando um samba-reggae", elogia a baiana, que convidou o cantor antes de escrever a música. "Disse a ele que se não quisesse cantar essa canção poderia escolher qualquer outra."
O CD é pontilhado por outras participações especiais. Dominguinhos toca acordeão em "Sol da Liberdade e "Só no Balanço do Mar", esta última "um presente de Lenine e Dudu Falcão". A voz cristalina e poderosa da cantora africana Angélique Kidjo aparece com força no belo dueto com Daniela em "Dara", também escrita pela baiana.
Há ainda composições de Caetano Veloso ("Axé Axé e Sou Você"), Vanessa da Mata ("A Viagem") e Roberto Carlos e Erasmo Carlos ("De Tanto Amor"), esta última servindo de contraponto ao nervosismo eletrônico com uma melódica combinação de voz e violão. "Queria fazer esse contraste, mas não foi nada pensado e sim resultado dessa abertura sonora a que me propus", explica Daniela.
Semelhanças explícitas - O sintoma mais claro da febre pop que vitimou a cantora baiana é a faixa "Itapuã @no 2000" (Lucas Santana/Quito Ribeiro). Os fãs ortodoxos certamente vão estranhar. Quem gosta de Fernanda Abreu vai adorar. Na música, há semelhanças explícitas com o som da cantora carioca. A explicação pode ser a presença do produtor inglês Will Mowat, que já trabalhou com Fernanda e Daúde e coloca a mão em 12 faixas, a maioria ao lado de Emilio Estefan, Juan Vicente Zambrano e Andres Levin. "Escolhemos cuidadosamente os teclados nessa música, para não sujar as bases", conta Daniela.
O novo CD traz Daniela Mercury para todos os gostos. Para os que preferem o velho e bom samba-reggae, a melhor notícia é a presença no disco de "Crença e Fé" ("Vou dar a volta no mundo, eu vou/ Vou ver o mundo girar/ Mas eu só saio daqui/ Quando o coral negro passar"), uma das música que projetaram a cantora no início da década de 90 e que só agora foi gravada. A razão de tanta demora? Nem ela sabe. "Fui adiando, era para ter gravado ao vivo, mas não deu; adoro cantar essas músicas, que são lindas e sempre vão ter espaço em meus discos", garante a cantora.


