Daniel Senise faz paródia em novas telas
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segunda-feira, 22 de novembro de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 21 (AE) - Anselm Kiefer era uma referência do pintor carioca Daniel Senise no começo de carreira. Uma grande referência. Enquanto Kiefer revolvia o passado alemão com uma escavadeira pós-romântica, Senise registrava o mundo com um prego enferrujado, deixando sobre a tela as marcas de uma iconografia que não era a sua. Tomava , enfim, emprestado o signo do sofrimento cristão, a coroa de espinhos registrada com pregos oxidados. Agora, a referência de Senise bem poderia ser Jasper Johns, considerando que, em sua exposição, na Galeria Thomas Cohn, resistem signos da cultura pop. A exposição abre amanhã (22).
Algo mudou nessa pintura e não se pode atribuir essa mudança a uma tentativa de aprofundar a discussão sobre consumo de signos. Historiadores de arte, entre os quais Argan, já observaram que a arte pop estava sintonizada com a crítica de uma "neurótica libido, a do consumo, que precisa destruir para existir". Ao se apropriar de uma antiga experiência de Jasper Johns - a incorporação na tela de elementos estranhos à pintura -, Senise não quer analisar a parábola ascendente do pop, ou seja, está menos interessado no processo de formação da imagem e mais na paródia.
Para isso ele recua no tempo e opta pelo processo redutivo. Usa uma imagem de segunda mão que tanto pode ser retirada do barroco italiano Guercino como do barroco holandês Hobbema. Acopla a essas imagens objetos de uso cotidiano como maçanetas e cabides, definindo sua intenção paródica e reforçando o comentário sobre a dificuldade de comunicação da pintura moderna. Por que usar uma tela feita por Hobbema (A Avenida, Middelharnis, de 1689, na National Gallery)? Responde Senise: "Eu pinto paisagens e a paisagem contemporânea é mediada pela representação."
Senise adota justamente uma tela de Hobbema (1638-1709) que, ao contrário de seus contemporâneos, preferia cenas rurais, elegendo a natureza em todo o seu esplendor. Hoje, desnecessário dizer, a paisagem contemporânea é formada por torres de concreto. Senise acoplou um cabide de metal nessas árvores de Hobbema, que o futuro proprietário da tela poderá usar para pendurar seu paletó quando voltar do trabalho. Mas, antes, terá de pagar uma pequena fortuna pelas árvores recicladas de Hobbema
que, aliás, morreu pobre, como inspetor de pesos e medidas numa repartição municipal holandesa dedicada à importação de vinhos.
Senise insiste que a pintura, antes, era o veículo para entender o mistério. "Hoje, é o próprio mistério", diz, esclarecendo que sua primeira intenção - a de levar o humor à pintura - traduz o desejo de criar uma poética capaz de envolver todos os espectadores. "Nós somos almas modernas e, portanto, vítimas da modernidade", conclui, afirmando sua aversão à mídia eletrônica e aos videomakers. Se ainda usa a pintura como meio de expressão é porque pensa nela como um desafio, uma força de resistência ao automatismo, mesmo que essa pintura use tinta industrial.
Senise brinca, lembrando que tudo vira cacoete, até mesmo a oxidação do prego na tela como alegoria da passagem do tempo. Se, antes, realizava monotipias com pregos enferrujados, hoje ele encontra em qualquer loja de materiais artísticos o "instant iron" e o "instant rust", produtos que respondem pela aparência de corrosão da ferrugem.
Se tudo vira imitação, por que não assumir de vez a brincadeira? Senise recua mais um pouco e chega a um afresco de Guercino (1591-1666), !Aurora", pintado entre 1621 e 1623 no Casino Ludovisi. Senise limpa as figuras mitológicas que aparecem no teto e deixa apenas os portais arquitetônicos projetados para o céu pelo ilusionismo de Guercino. Para completar, coloca o título Sansão na tela e uma maçaneta para quem estiver disposto a abrir as portas do céu barroco.
Senise começou a incorporar objetos de uso cotidiano às telas em 1988. O primeiro foi um prato que seu pai usava para dar água aos patos. Agora, patinhos de brinquedo pulam sobre cubos "enferrujados" numa tela que faz a crítica da "vocação" construtiva da arte contemporânea brasileira. "Penso como isso está divorciado de nossa realidade alegórica"
justifica o pintor.
E, continuando com a provocação, Senise pretende ingressar no circuito das instalações, mostrando em Liverpool uma extensão de seu trabalho em tela. O prego enferrujado era o seu sudário. Agora são as marcas do amor e do sofrimento nos lençóis alheios. Senise trocou lençóis de hospital por lençóis de motel e vai montar uma instalação na terra dos Beatles, signo máximo da cultura pop. Só no passado absoluto essa imagem conserva o que o sudário revela no raio X: as marcas da passagem do humano, demasiadamente humano, suor. Serviço - Daniel Senise. De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Thomas Cohn. Avenida Europa, 641, tel. 883-3355. Até 18/12. Abertura às 20 horas


