Daniel Radcliffe: 'Há vida depois de Harry Potter'
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Tonica Chagas <br> Especial para AE 
Nova York - Harry Potter é ''o menino que sobreviveu'' à maldição da morte de Voldemort. E Daniel Radcliffe vai sobreviver a Harry Potter? Se depender só da tenacidade do ator inglês que incorporou o bruxinho durante 10 dos seus atuais 22 anos de idade, com certeza sim.
Em junho de 2010 e ainda na Inglaterra, logo depois de terminar as filmagens de Harry Potter e as Relíquias da Morte, oitavo e último filme da série, ele começou seu primeiro trabalho no cinema como adulto, no filme de terror dirigido por James Watkins ''A Mulher de Preto'', que estreia hoje no Brasil. Quase ao mesmo tempo, ensaiou e estreou a comédia musical How to Succeed in Business Without Really Trying, em NY, onde ficou em cartaz por um ano.
Em ''A Mulher de Preto'', adaptado do livro homônimo de Susan Hill, Radcliffe faz Arthur Kipps, um jovem advogado, viúvo e pai de um menino de 3 anos. Mandado de Londres para um vilarejo litorâneo da Inglaterra do início do século passado, Kipps precisa pôr em ordem os papéis de uma cliente recém-falecida, mas é perturbado pelo fantasma de uma mulher vingativa e relacionado à morte de crianças.
Numa segunda-feira úmida e cinzenta do outono em Nova York, ele passou o que seria seu dia de folga no teatro sem sair de uma suíte do 30.º andar do Waldorf Hotel, falando do seu novo filme a jornalistas estrangeiros. A entrevista para o Grupo Estado foi a última do dia. Ele admitiu estar exausto, mas falou do trabalho com tanto entusiasmo como se, só agora, aos 22 anos, estivesse estreando como ator.
Você vem trabalhando em papéis totalmente diferentes e quase ao mesmo tempo. É uma dissociação proposital do personagem Harry Potter?
Depois de trabalhar com um personagem por dez anos, a gente quer fazer a maior variedade possível de papéis. Agora estou ávido nessa busca e, quanto mais diferentes em idade e características eles sejam, melhor!
Tanto o jovem atormentado de Equus quanto Arthur Kipps, em A Mulher de Preto, têm questões psicológicas diferentes dos problemas que Harry Potter solucionaria com mágica. Como delineou os personagens para desenvolvê-los sem ajuda de efeitos especiais?
Arthur não é nem de perto perturbado e psicótico como o Alan de Equus. Mas ambos compartilham de solidão e de um sentimento de injustiça e afastamento da sociedade. Alan cegava cavalos e provavelmente seria capaz de fazer mal tanto a si mesmo como a outras pessoas; Arthur é capaz de fazer mal só a si mesmo, como parece que faria já na primeira cena em que aparece, enquanto se barbeia.
Arthur é mais velho que você, é pai, é seu primeiro personagem adulto. O que o ajudou a interpretá-lo?
Ouvir música me dá o tom de uma cena. Para este filme, andei ouvindo Micah P. Hinson and the Gospel of Progress (álbum do texano Hinson, inspirado em grande parte por sua luta para se livrar de drogas e o tempo que passou na cadeia ou morando na rua). O interessante é que as músicas do disco não eram particularmente relacionadas com o filme... Ouvi muito esse álbum em 2009, num período que foi bem negro... Ele trouxe de volta a sensação de um tempo em que me sentia uma pessoa sombriaà
Que período foi esse, o que estava acontecendo?
Quando tive problemas com bebida... No fim daquela época, mais ou menos entre meus 18 e 19 anos, foi quando ouvi aquele disco pela primeira vez. E voltei a ouvir quando estava fazendo o filme, não tinha feito isso desde entãoà Talvez seja uma coisa masculina, não sei, mas se entro numa sala e sinto que alguém está usando o perfume da minha namorada isso me dá uma forte sensação de paixão. É a mesma coisa com músicas e cheiros, que me trazem sensações e memórias.
Então isso é parte do seu método como ator?
Acho que sim. Nunca tive realmente um método. Quando faço um filme, me baseio principalmente no texto, gosto muito de diálogos, das palavras, da linguagem. Uma das coisas mais interessantes neste filme é uma sequência de quase 20 minutos sem diálogo. Ter que me comunicar sem verbalização foi estimulante para mim como ator. Gostei muito!


