'Daniel, O Capanga de Deus'
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sábado, 26 de setembro de 2009
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Para os que ainda esperam ver a primeira namoradinha do Brasil nua, não será desta vez. A nudez de Regina Duarte foi o apelo promocional de um filme premiado dos anos 70, ''Daniel, O Capanga de Deus ''. Único longa-metragem de João Baptista Reimão, ele deve ser restaurado agora pela Kinoarte. O filme, feito em 35 milímetros, foi premiado no canadense Montreal World Film Festival, em 1978. O projeto tem a participação da filha do diretor, Isadora Reimão.
A nudez da atriz nunca aconteceu mas o diretor do filme, que também era um ex-publicitário de sucesso e autor de campanhas que marcaram época, aproveitou os boatos como estratégia de marketing. A expectativa do polêmico nu da atriz foi acesa pelo vazamento de fotos feitas pela equipe de produção de sequências que foram cortadas na edição final do longa.
A nudez foi só um apelo promocional, mas além de uma das melhores atuações de Regina Duarte no cinema ao interpretar as gêmeas, a prostituta Sandra, e a certinha Beatriz, o único filme roteirizado e dirigido por Reimão tem outros motivos para ser visto: as atuações de Arduíno Colassanti e Paulo César Pereio e a fotografia da dupla Dib Lutfi, que entre outros filmes assina ''Terra em Transe'', de Glauber Rocha (1967), e Chico Botelho.
Baseado no livro homônimo de Reimão, ''Daniel, O Capanga de Deus'' estava desaparecido e numa daquelas histórias que só rolam na mesa de bar, a filha do diretor, Isadora Reimão, da equipe de produção de arte da Kinoarte, contou ao diretor de fotografia londrinense Anderson Craveiro sobre a existência de uma cópia do longa, que ninguém sabia que existia. Nos anos 70, o filme ficou somente três meses em cartaz.
A partir da cópia do filme encontrada no acervo do Museu de Imagem e Som (MIS), em São Paulo, Craveiro e Isadora criaram um projeto de restauração, que acaba envolvendo toda a equipe da Kinoarte, e que começou com o próprio Reimão assistindo a uma exibição.
Durante a sessão especial, que emocionou bastante o diretor, Craveiro fez uma cópia do filme, que já sofre com a síndrome do vinagre, no jargão cinematográfico - começa a perder a cor pela oxidação.
''Nós mesmos vamos fazer um primeiro tratamento das imagens quadro a quadro com a facilidade tecnológica digital que dispomos hoje para que o filme já possa ser exibido, mas um processo de telecine, que custaria cerca de R$ 12 mil reais requer um projeto maior. A restauração de 'Daniel, O Capanga de Deus'' levará mais tempo'', afirma Craveiro.
O produtor da Kinoarte Bruno Gehring diz que a intenção é atrair os olhares da iniciativa privada para a restauração do longa, como negociar com o Canal Brasil o custo do processo de telecine em troca da exibição e participar de editais, a exemplo dos que são publicados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
''O meu pai atingiu o auge como profissional de publicidade e frequentou programas como os da Hebe Camargo. Porém, ele fez várias tentativas de fugir desse sistema. Chegou a morar numa comunidade na ilha de Itaparica. O filme é autobiográfico e conta um pouco sobre essa tentativa de fugir de tudo'', conta Isadora, lembrando que Reimão faz uma ponta no longa, como uma espécie de xamã.
Aluno de Jean-Paul Sartre, na Sorbonne, Reimão viveu em kibtuz, um tipo de comunidade israelense, pirou no Woodstock, mas trocou tudo pelo anonimato e a vida de empresário em Piraju, interior paulista.
Em Londrina a exibição do longa - mesmo antes de ser restaurado - vai ser um dos destaques da 11 Mostra Londrina de Cinema e terá garantida a presença de Reimão.


