A saudade é um lugar de muitas moradas, indecifrável, indefinida, onde as pessoas não morrem nunca. Principalmente, as que descobrem, cedo ou tarde, que o segredo da paz é da cor do amor.
Apenas os que não têm vergonha de deixar o coração explodir, arremessando o peito contra a própria poesia ao gritar com os versos ''Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder/o que não dá mais pra ocultar/já que o brilho desse olhar foi traidor/e entregou o que você tentou conter/ são capazes de se entregar generosamente à toda e qualquer forma de paixão.
Só por isso conseguem permanecer para sempre na lembrança dos que tiveram o privilégio de ouvir sangrar a voz de um dos maiores poetas da MPB.
Gonzaquinha é um desses artistas que tem uma casa ampla e de muitos cômodos na saudade do público, representados pelo vigor de um obra produzida em curta trajetória, mas que ainda surpreende.
O CD ''Comportamento Geral'' (Biscoito Fino), do herdeiro musical do clã Gonzaga, Daniel, que tem em Luiz Gonzaga o patriarca de uma saudade imensa no coração do Brasil, é uma dessas surpresas.
Daniel Gonzaga é um músico de alma com brilho próprio, apesar das semelhanças físicas de sua voz e composição com o pai.
No quinto disco da carreira e nos 16 anos da morte de Gonzaguinha, Daniel Gonzaga lança ''Comportamento Geral'', que traz a música inédita do compositor ''Namorar''.
Nesta composição Gonzaguinha não sangra por amor, mas faz festa ao revelar versos como ''...descobri o segredo da paz/a paz é da cor do amor/.
''O repertório foi selecionado com um critério um pouco afetivo, com coisas que eu gosto e gostaria que as pessoas ouvissem. São músicas que falam de comportamento, luta e batalha'', comenta Daniel, que lançou o primeiro disco, ''Sob o Sol'', aos 21 anos, sendo bem recebido pela crítica.
''Comportamento Geral'' foi gravado ao vivo e apresenta novos arranjos para clássicos de Gonzaguinha, mantendo também algumas versões originais.
''O meu pai é um autor de tradição, sendo uma responsabilidade gravar o repertório dele, mas não tivemos muitos problemas com isso, já que o trabalho traz a participação de alguns mestres que tocavam com Gonzaguinha, como Pedro Moraes'', comenta.
''Explode Coração'', ''Sangrando'', ''O Que É o Que É'', ''Gás Neon'', sucessos anteriormente na voz de Maria Bethânia'', e músicas menos conhecidas do grande público, caso de ''Chão Pó Poeira'', são retratos de saudade de Gonzaguinha que Daniel mostra no CD.
Daniel não nega que entre o trabalho como compositor e o de Gonzaguinha existem semelhanças, mas que o próprio tempo decidiu pôr cada um deles contextualizado num determinado momento musical.
''Em comum com o meu pai, eu tenho a postura, um pouco preocupado com questões sociais. Gosto de falar as coisas abertamente. Não tenho medida nas palavras. Porém, eu criei um caminho próprio. A minha geração é mais pop, mesclo ritmos. Existe sim uma comparação familiar e na voz, não posso negar'', afirma Daniel, consciente também de ser batizado nas águas musicais do velho Gonzagão.
Em seu tempo - muito mais do que no do pai e avô - Daniel vive a ditadura da mídia, que pune com o exílio de suas páginas e câmeras os que querem subverter a sua ordem.
''A mídia executa coisas palatáveis. Hoje tem uma repressão, ditadura do mercado, e as pessoas que não fazem uma produção voltada para isso, ninguém toca, passando a viver à margem. Eu procuro fazer o que quero. Tanto no meu trabalho autoral, como neste resgate à obra do meu pai''.
Sobre o caminho que escolheu musicalmente, Daniel conta que gosta de compor música e letra ao mesmo tempo, sempre ao violão, com uma folha de papel e caneta na mão ou diante do computador. As músicas surgem dos livros que lê, das frases que escuta na rua e das imagens que guarda na memória.
Quando Gonzaguinha morreu aos 45 anos, num acidente automobilístico entre as cidades de Francisco Beltrão e Pato Branco, no Paraná, Daniel tinha 16 anos de idade.
''O nosso relacionamento sempre foi muito bom. O meu pai era daqueles que mandava a gente estudar, tomar banho e dizia: 'Se você quer aprender a tocar violão vai aprender a tocar'. Não sinto a ausência dele. O sentimento é de saudade. Mas o Gonzaguinha está por aí, na sua obra. Agora, adoraria ter ele comigo para ouvir este trabalho'', conclui o herdeiro dos Gonzaga, certo de que o segredo dessa paz é da cor do amor. Um lugar onde as pessoas não morrem nunca.

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