Um pouco arredio mas consciente de seu ofício, o ator se diz satisfeito por estar interpretando o costureiro Selmo de Windsor, em ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’
Daniel Dantas parece arredio, desconfiado. O jeito humorado que apresenta em ‘‘Um Anjo Caiu do Céu’’ como o costureiro Selmo de Windsor não tem nada a ver com o ator de 47 anos. Na verdade, Daniel é dono de uma fina ironia e o lado retraído só vai se tornando gentil depois de um tempo de conversa. Na tevê, aparece há 21 anos – pela primeira vez em uma participação na série ‘‘Malu Mulher’’, em 1980 – e a novela de Antônio Calmon é a 12ª da carreira. Mas o ator resiste à idéia de que a estréia na tevê tenha sido um marco. Daniel começou com 12 anos de idade no teatro e a primeira peça profissional foi aos 16, após obter autorização do pai, o ator Nélson Dantas. ‘‘A minha geração resistiu em entrar para a tevê, que era considerada menor em termos artísticos’’, confessa Daniel.
Mas logo o ator diz ter chegado à conclusão que ‘‘porcaria se faz em qualquer lugar’’. Por isso, aprendeu a se preocupar mais com o que iria interpretar e não tanto com o veículo em si. Acostumado a ganhar papéis em que vive o marido burguês ou amante urbano, Daniel gosta de estar interpretando um personagem que foge desse estilo. Por isso, torce para que Selmo não se torne necessariamente machão mesmo com o relacionamento amoroso com Lulu Machadão, papel de Bel Kutner. ‘‘O divertido é esta dubiedade. Quebra o padrão de que homem tem de ser másculo’’, acredita o ator carioca.
Daniel sempre chama mais atenção por sua performance em cena do que por estar na mídia. Ao contrário: evita aparecer, fora de cena está sempre despenteado e com roupas pouquíssimo glamourosas e odeia fotografar – especialmente quando se pede para que ele olhe para a câmara. ‘‘Fico cansado e mais feio do que já sou habitualmente’’, ironiza. Todo esse comportamento corresponde fielmente à maneira com que Daniel Dantas encara a profissão: ele condena a corrida das emissoras por encontrar galãs e gostaria de se preocupar apenas em interpretar o personagem. ‘‘O ator deveria ser apenas o ‘cavalo’ do autor’’, defende.
Já virou chavão dizer que toda atriz deseja interpretar uma prostituta. Você tinha alguma fixação em viver um homossexual?
R - Não. O importante para mim é alternar papéis. Então é bacana quando se ganha um personagem imprevisível como o Selmo. Claro que todo ator tem um sonho. Acharia ótimo fazer uma mulher. Gostaria muito. Quase fiz com a Bia Lessa. Ela chegou a cogitar de eu fazer o Orlando, quando ela teve de mudar o elenco da peça. E ele vira homem e mulher. Mas não rolou. O importante é que esta novela é diferente de tudo que fiz em tevê. Geralmente não ganho um personagem tão caricato. O Selmo é exagerado e foi se transformando sem deixar de ser agradável de interpretar. Acho sensacional manter ele aqui e ali delicado, ter umas recaídas, sem estar fazendo o gay espalhafatoso que ele era no início da trama.
O fato de seu personagem começar um relacionamento com a Lulu Machadão surpreendeu você?
Ainda acho que ele é gay. Durante um tempo brinquei que eu mudei de personagem, quando ele começou a se apaixonar pela Lulu. Deixei de fazer um gay para viver uma lésbica. Mas ele não passou a ser homem. Aliás, ele é muito homem, mas também é muito gay. E nem quero que deixe de ser. Essa dubiedade é legal. Serve para quebrar aquele rótulo do homem másculo e fica divertido. Além disso, exercito o meu lado de humorista. Não acredito que exista um papel verdadeiramente bom, nem trágico, quanto mais dramático, que não tenha humor. É difícil imaginar uma peça realmente boa em que não se ria. A maioria dos autores clássicos você ri e fica com o coração apertado de uma hora para outra. Mas não faço distinção para trabalhar. Na verdade, me comporto como um funcionário. Um operário. Faço o que me chamam.
Até poucos anos você não tinha contrato fixo com a Globo. Isso influenciou no sentido de você nunca ter ganho protagonistas?
Acho que sim. Tem uma preferência da Globo em usar quem ela está pagando constantemente. É ruim quando isso impede que se renove o elenco e pegue gente boa de fora. É óbvio que nem todo mundo bacana é contratado da Globo. É ruim levar isso a um extremo. Mas deve fazer sentido do ponto de vista empresarial. O problema é ficar pressionado a fazer uma novela atrás da outra. Além de colocarem os mesmos atores para os mesmos papéis.
Você, por exemplo, geralmente era escalado para viver o homem de uma relação conjugal...
Muito. E é difícil fugir completamente disso. Então é legal pegar um papel que não é o que esperam de você. Como agora está acontecendo comigo nesta novela. Sempre vivi o marido, o namorado, o amante. Sempre girando em torno de um tipo urbano, meio antigalã. Tem um pouco isso. Não tem como negar este enquadramento. Só não quero ficar só nele. Então o personagem do Calmon é ótimo para isso. Levanta uma possibilidade diferente.
Você fez muitas produções do Gilberto Braga. Existe realmente os ‘‘escolhidos’’ de cada autor?
Existe sim. Mas estou absolutamente seguro que não é o meu caso. Sempre tem uma turma que você acha que é mais sua galera. Eu tenho o Dênis Carvalho e outras pessoas com quem trabalhei mais. Mas tenho mais de uma turma, com uma certa sobreposição. Tem gente que fica meio junto ali. Para alguns atores, imagino que seja um jeito de se manter. Você é daquela turma e o cara vai escalar você sempre. Para outros atores, que já atingiram um certo patamar, imagino que não seja vantagem. Ser exclusivo de um determinado cara, seja lá quem for, é prejudicial. Se você tem um monte de possibilidades, reduzir o seu espectro é ruim. O autor também não vai escolher um pentelho para fazer uma novela. Então, se ator trabalha bem com um autor, entre este e um cara que é igualmente adequado para o papel, mas é um chato, você vai escolher o amigo. Está certo. Já tem muita coisa para dar errado para procurar ainda mais problema. Nisso tudo, só tenho certeza que a escalação é fundamental.
Você aceitaria viver novamente um personagem afeminado?
Isso depende muito do personagem em si, de como é escrito. Se pego dois papéis que são parecidos, não tenho muito o que fazer. Vivi isso com a Maria Padilha. Formamos casal classe média alta em ‘‘Dono do Mundo’’ e depois em ‘‘Anjo Mau’’. Ela ficou aflita para saber o que fazer de diferente. Falei: ‘‘Não vou fazer nada de diferente. Senão vou ficar fazendo a diferença. Meu trabalho é fazer o papel. Acredito que a Maria Adelaide vai escrever diferente do Gilberto... porque ela quer outras coisas e é outra pessoa. Vai sair diferente. Ou não vai. Mas aí não cabe ao ator. E sim ao autor’’. Neste sentido, a gente é muito mais executante do que gosta de admitir.
Você está falando que às vezes o ator precisa corrigir um personagem não tão bem escrito pelo autor?
Isso acontece com frequência. O ator faz uma invasão discreta e, às vezes, absolutamente necessária na área autoral. E não seria o trabalho dele. O ator deveria ser somente o cavalo. Isso é uma coisa que o Amir Haddad fala muito. É legal deixar o personagem passar por você. Pois nessa hora passa a ser uma coisa sua, menos ou mais. Então, tem atores que sempre fazem eles, porque torcem o papel para aquilo que eles sabem fazer. Na minha opinião, são atores menos bons do que os que contribuem para o personagem. Há algum tempo, estava em uma festa e passou uma cadeira de rodas vazia pelo corredor. Lembro que alguém disse: ‘‘acabou de passar a interpretação de Tom Cruise em ‘4 de Julho’’’. E é verdade.
Você participou de ‘‘O Amor é Nosso’’, em 1981, que tinha no elenco o falecido Pixote. Dividir espaço na tevê com fenômenos da mídia já é coisa antiga?
Se alguém consegue uma certa projeção, a tevê vai querer usar. Acho muito estranho. O que fica claro é que tem uma divisão entre ser ator e ser artista de tevê. Eventualmente para trabalhar você tem de ser os dois. Não me considero um artista de tevê. Mas sou uma pessoa bastante conhecida por fazer televisão. O que percebo é que a Globo, e algumas pessoas do teatro, estão loucas atrás de galãs. Pois os nossos galãs estão velhos. Isso é desesperador para quem acha que sem galã as novelas não farão sucesso.
Você acredita nisso?
Tenho minhas dúvidas. Um bom exemplo, que viveu muito bem na tevê, cinema e teatro, é o sucesso de ‘‘O Auto da Compadecida’’. Matheus e o Selton não são galãs. E manejar com este lado mais frívolo da mídia e da própria tevê dá um certo estresse. Você fica convivendo com este fuxico. Quem está casando com quem, revista ‘‘Caras’’...
Você não iria à Ilha de Caras?
Não. Me convidaram para ir nessas viagens e tirar fotos. Topo, desde que não seja um aluguel. Tiro umas fotos e depois que me deixem em paz. Tenho histórias de várias pessoas tipo: ‘‘a gente leva você para a África, mas você não faz nada na África a não ser tirar fotos’’. Então não vou. Quero ver a África, ir para safári e no domingo tirar umas fotos. Então nunca aceitei. Na verdade, não gosto de tirar foto nem em estréia de novela.

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