DANDO NÓ NO DIABO
Eram três horas da manhã e Jean tomava chá com sua insônia. Apesar do horário impróprio horário para visitas, a campainha tocou. Ao abrir a porta, Jean deu de cara com um homem baixinho de aparência sombria. Usava roupas antiquadas, fora de moda e com cheiro de guarda-roupa. Educadamente, o sujeito pediu desculpas pelo incômodo mas precisava anunciar que Jean tinha apenas três dias de vida.
Claro que Jean não levou o sujeito a sério, mandou-o caçar sapos e fechou a porta. Após alguns minutos, o cara apareceu misteriosamente sentado no sofá da sala dizendo que não estava brincando, que realmente Jean tinha um encontro marcado com a morte dentro de 72 horas. Disse mais, falou que ele havia ganho um raro sorteio, que acontecia de 25 em 25 anos. Tinha direito de pedir qualquer coisa, dinheiro, mulheres, fama, viagens, comida, bebida, etc. Todos os seus desejos seriam realizados no decorrer das 72 horas.
Jean continuou não levando o sujeito a sério. Mesmo assim, nervoso, jogou-o pela janela do apartamento. Sétimo andar. Após alguns minutos, lá estava o baixinho sentado do sofá da sala confessando que na realidade ele era um diabo. Sua missão era satisfazer todos os desejos de Jean e, no horário combinado, levar sua alma para o além. Se conseguisse realizar a missão com sucesso, seria promovido na hierarquia do inferno.
A estranha história de Jean e o diabo está no romance infanto-juvenil Sorteio da Morte que acaba de ser lançado pela Editora Cia. Das Letras. De autoria do escritor argelino Hubert Ben Kemoun, o livro narra trajetória de um homem que nunca deu muita importância à vida e, de uma hora para outra, precisa correr contra o tempo para agarrar os últimos fiapos de sua existência.
Dá para imaginar como Jean se sentiu. Três dias para passar a vida a limpo não é muito tempo. Angustiado, sua primeira providência é fugir do sujeito que veio do inferno, mas logo percebe tratar-se de uma saída inútil. Resolve então bolar um plano para que a hora marcada de sua morte não exista. Decide não aceitar nenhum favor do além e, com as próprias mãos, dominar o próprio futuro. Então, uma longa e opressiva aventura tem início.
Em Sorteio da Morte Hubert Ben Kemoun não se propõe a fazer uma explanação didática sobre a vida e a morte, sobre o bem e o mal, sobre deus e o diabo. Seu trabalho é puramente literário, sem grandes preocupações com morais de histórias. Nas últimas páginas do romance, ele simplesmente inverte os pólos do senso comum e joga nas mãos do leitor um verdadeiro impasse filosófico. Fica claro que não possui a intenção de tratar o jovem leitor de maneira paternalista via objetividade. Sorteio da Morte é a primeiro obra de Kemoun publicada no Brasil. Autor de mais de 40 livros infanto-juvenis, há anos ele trocou a Argélia pela França, onde ganha a vida (e a morte, é claro) escrevendo radionovelas e peças de teatro.
Sorteio da Morte - De Hubert Ben Kemoun, Editora Cia. Das Letras (telefone: (11) 3846-0801 / internet: www.companhiadasletras.com.br), tradução de Carlos Sussekind, 144 páginas, R$ 18,00.A literatura do escritor argelino Hubert Ben Kemoun chega ao Brasil com a publicação de Sorteio da Morte, romance infanto-juvenil que narra a aventura de um homem em enganar o diaboMarcos Losnak
De Londrina
Especial para Folha2





