Cia Fragmento de Dança, de São Paulo: a arte como forma de pensar fora dos padrões
Cia Fragmento de Dança, de São Paulo: a arte como forma de pensar fora dos padrões | Foto: Leonardo Lin/ Divulgação
Leandro Belilo: dança como forma de reflexão
Leandro Belilo: dança como forma de reflexão | Foto: Fábio Alcover e Mariana Hertel/ Divulgaç



Uma das melhores características dos festivais artísticos talvez seja a capacidade de reunir, num período geralmente curto - porém intenso - várias atrações diferentes do mesmo segmento. Apesar do pouco tempo, o público pode ter contato com diversas manifestações e embebedar-se de tudo um pouco, se assim desejar. Uma prova disso é a programação do Festival de Dança de Londrina que, nesta edição, está promovendo um mergulho, com uma programação formada pelos mais recentes trabalhos desenvolvidos neste universo.
Como é de costume, pelo menos por aqui, a curadoria abriu espaço a todos os tipos de linguagens da dança. Se a ideia de passos e movimentos rígidos está para a dança clássica, na contemporânea, o que predomina é a expressão individual de cada corpo, porém, tecnicamente bem construída.

Vanessa Macedo, bailarina, coreógrafa e diretora da Cia Fragmento de Dança, de São Paulo, que também compôs a programação do festival com o espetáculo "Porque Somos Mutantes", explica que a dança contemporânea não pode ser considerada uma escola nem uma técnica. "É um modo de pensar a dança, uma perspectiva de como você vê o mundo e se relaciona com ele. Justamente por não ser uma técnica ou escola, não está padronizada em um jeito único de fazer. O que a caracteriza é cada um poder criar seus próprios parâmetros, com base em sua visão de mundo e abordar suas perspectivas."

Por isso mesmo, destaca ela, é da natureza da dança contemporânea produzir algo próprio e autoral. "Trata-se da possibilidade de a pessoa trabalhar a forma como vê o mundo, seja politicamente, eticamente e, também, esteticamente, levando isso para a cena e colocando o corpo em diálogo com essas questões. Ou seja, é um modo de pensar e não um modo de mexer", ressalta a diretora.

Nessa perspectiva, conforme Vanessa, um fato representativo dos grupos que desenvolvem esse tipo de dança é a retirada de espelhos das salas de ensaio para que o trabalho não aconteça em cima de um referencial externo de modelo a seguir. "Nós vamos criar nossos referenciais de corpo e, também, que qualquer tipo de corpo seja capaz de dançar. Tudo isso vem através de um pensamento de mundo." Seguindo essa linha, a Cia Fragmento de Dança desenvolve pesquisa e criação em dança contemporânea desde 2002. Na busca de uma dança teatralizada, preocupa-se com a construção de uma dramaturgia do corpo e da cena coerente com os temas pesquisados, ou seja, suas criações são marcadas pela inspiração em artistas, obras e conteúdos, especialmente, confessionais. Discute, a partir daí, relações vividas pelo homem, enquanto ser social, e ser solitário.

Da rua para o palco - Algo que não se pode negar é a influência da tradição e costumes populares nas manifestações artísticas. Nesta linha está o movimento hip hop, que nasceu nos Estados Unidos na década de 60, na cidade de Nova Iorque, e ganhou o mundo na década de 80. Sustentado pelos pilares das atividades do DJ, grafite, o rap e o break, tem este último como um dos expoentes do street dance ou, em bom português, dança de rua que, por sua vez, se abre em várias vertentes. "Cada uma dessas vertentes surgiu em uma época, mas todas vão se agregando dentro da cultura urbana. A dança de rua está em constante transformação", diz Leandro Belilo, integrante da Cia Fusion de Danças Urbanas, de Belo Horizonte (MG), que ministrou a oficina Dança Urbana durante o festival.

Segundo ele, a dança de rua pode ser considerada uma das mais contemporâneas, no sentido denotativo da palavra. "Como toda outra dança, esta possui suas técnicas e fundamentos, passos básicos, tem o porquê do nome e o propósito. Isso confere uma linguagem forte e com mais propriedade. No entanto, não deixa de se influenciar pelo que acontece nos dias de hoje."
Ainda assim, a sistematização em uma metodologia pode ser considerada frágil. "Há a necessidade de mais grupos buscando meios que se sustentem fazendo o que fazem para construir um lugar em que as pessoas envelheçam fazendo a dança, um lugar mais maduro, de questionamento", diz. "Precisamos ter esse olhar de profissionalização e também um olhar político. Não queremos só falar de dança. Acreditamos que se nos politizarmos, trouxermos a militância, seremos um grupo menos vulnerável. Vamos, então, falar de machismo, racismo, de homofobia, de todas as violências, seja pelos movimentos e, também, pela oralidade. Não vamos subir ao palco para realizar apenas movimentos alinhados para ganhar troféu. A arma que temos é a nossa dança e várias pessoas vão nos ouvir a partir dela", argumenta.

mockup