Dançar, ato atemporal
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sábado, 28 de abril de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Recomeçar é sempre uma atitude que exige disciplina e força de vontade. Quando o recomeço pede também esforço físico e uma nova educação corporal, a exigência é ainda maior. É o caso de bailarinas que abandonaram a dança, investiram em outras profissões, filhos, família e dez, 15, ou até 20 anos depois decidiram retomar o trabalho com o corpo através da dança clássica. São mulheres que já passaram dos 40, driblaram o preconceito e retomaram o sonho da dança ou ainda optaram pelo balé como uma atividade física completa, que une arte e exercício, mesmo sem ter tido qualquer experiência anterior. Exemplos não faltam, mas no palco, a idade não importa. A dança é generosa com quem persegue seu sonho.
A médica oftalmologista Virgínia Pilati, de 52 anos, por exemplo, vem de uma família ligada à dança clássica e iniciou no balé aos sete anos. Durante anos, conseguiu conciliar a atividade física com os estudos, mas quando vieram os filhos abandonou a dança. Durante uma década ficou longe das sapatilhas. ''Nesse meio tempo até tentei fazer ginástica, musculação, mas não me adaptava com nada'', conta a médica. Decidiu então, sem medo, voltar ao balé. ''É um exercício completo e, além disso, no balé clássico você rejuvenesce todos os dias. Você dança com meninas de 15 anos e não sente diferença'', conta Virgínia que ''puxa a fila'' das bailarinas de todas as idades nos espetáculos de dança da escola Stúdio D, em Curitiba, onde faz aula.
História igualmente curiosa é de Mauren Esmanhoto, de 50 anos, ela também dançou quando pequena, abandonou a dança e só depois que a filha se interessou pelo balé clássico decidiu retomar a atividade. ''Minha maior alegria foi começar a dançar com sapatilha de ponta no mesmo dia em que a minha filha'', conta. Mauren trabalha com recondução corporal na melhor idade e não hesita em aplicar o que aprende nas aulas de balé clássico com os seus alunos. ''O balé ensina você a enxergar melhor o seu corpo. Sua postura muda completamente'', comemora. Mas faz um alerta: ''Você não pode retomar o balé depois de décadas achando que tudo vai ser como antes. Seu corpo muda, sua estrutura muda. É preciso encontrar um novo corpo e uma nova maneira de se movimentar'', ensina.
A procuradora do município de Curitiba, Erenise Bortolini, 41 anos, compartilha da opinião, mas no caso dela, não foi um retorno e sim um começo. O fato de nunca ter dançado balé clássico antes, no entando, não a impediu de iniciar as aulas ao mesmo tempo que a filha, Ana Carolina, de 6 anos, o que aconteceu há cerca de dois anos. ''Desde criança eu sonhava em fazer balé. Minhas mãe não deixou e me pôs no piano'', lembra. Na adolescência ela chegou a arriscar algumas aulas, mas não por muito tempo, logo trocou pela academia e outras atividades físicas, até parar para se dedicar à família e à carreira. ''Quando voltei a dançar eu não lembrava de nada, além disso, tinha ficado sedentária por muitos anos. Começar foi difícil'', admite.
Mas a persistência valeu a pena. Erenise revela que dançando consegue movimentar o corpo e alimentar a alma. ''Escuto a música e nem sinto que estou me exercitando. A aula tem uma hora e meia, mas se a professora pedisse mais eu nem iria sentir'', diz. A maior alegria e conquista da procuradora, conforme ela conta, foi subir ao palco do Teatro Guaíra para uma apresentação de dança, ao lado da filha. ''Apresentar o balé no palco era um dos meus sonhos. Quando isso aconteceu, foi uma experiência ímpar, indescritível'', conclui.


