Este ano, o festival contou com espetáculos mais densos de teatro, mas a dança-cênica sobressaiu na grade de programação que também teve a chuva como coadjuvante
O Festival Internacional de Londrina (Filo) terminou ontem depois de 25 dias de programação em vários pontos da cidade. Espetáculos do Canadá e Japão finalizaram o evento. No Cabaré, o show de Beth Carvalho.
O Filo possui um público fiel que há anos faz a via crucis pelos espaços cênicos da cidade durante esse período. Esse ano, o público se renovou, uma conquista valorosa. Certamente, a mídia televisiva atraiu frequentadores de espetáculos sazonais dos atores globais.
Poucos espetáculos empolgaram na Mostra Nacional, ou causaram polêmica. Irregular, alternaram-se espetáculos comoventes, como ‘‘Cuando tu no estas’’, do grupo Seres de Luz (Campinas) e ‘‘Liliputz’’, da Cia. Armatrux (Belo Horizonte).
Das peças da América Latina, duas em especial despertaram a atenção e acirraram discussões: ‘‘Las Mujeres en la guerra’’, com Carlota LLano (Colômbia) e ‘‘Severa Vigilancia’’, dos cubanos do Teatro Jueguespacio. Essas duas montagens exemplificam o que o isolamento e a ausência de intercâmbio nas artes podem acarretar. Tanto a atriz Carlota LLano como os atores do Teatro Jueguespacio se apoiaram num estilo de interpretação ultrapassada. O que impressionou nas montagens foi a fé cênica dos atores, a capacidade de entrega no trabalho, mas pelo viés do estereótipo, melodramático e até da ingenuidade.
Por onde passa, o Teatro da Vertigem desestabiliza emoções. ‘‘Apocalipse 1,11’’ colocou a chuva como personagem importante do Filo. O teto do Cadeião, em Londrina, onde foi ambientado o espetáculo, desabou por três vezes, inundando o cenário. Os ingressos se esgotaram rapidamente e quando foi colocada uma sessão extra a história se repetiu. O espetáculo dirigido por Antônio Araújo aglutinou o público mais heterogêneo do Festival.
Em ‘‘Apocalipse’’ figuras simbólicas – sagradas e profanas – se fundiram numa só. O público andava assombrado e submisso no ambiente hiper-realista do Cadeião. O diretor criou um espetáculo de efeitos hiperbólicos em que as sensações ficaram aterrorizadas pelos excessos. Isso encarcerou os espectadores diante dos horrores da sociedade contemporânea.
O Cabaré - espaço de shows do Filo - ganhou mais visibilidade do que o Festival de Teatro porque o público se identificou com a proposta acertada da diversidade de gêneros musicais, a interferência plástica no espaço, geralmente concebido com criatividade. Mas esse ano, o Cabaré foi prejudicado por problemas técnicos de som que não apresentava boa qualidade de reverberação no Centro de Eventos Maracaju.
Um dos temas predominantes presentes esse ano foi a loucura. O inconsciente desgovernado de ‘‘Stella do Patrocínio’’, de Clarisse Baptista, ‘‘Jardim de Tântalo’’, com a companhia FAR 15, de São Paulo; ‘‘Olympia’’, com Grupo de Teatro Andante, de Minas Gerais; e até a loucura absurda de ‘‘Fando e Lis’’, com o grupo londrinense Boca de Baco.
Mas quem ocupou a cena efetivamente no Filo 2002 foi a dança-cênica. Uma aposta do Festival em função até indisponibilidade de recursos em tempo hábil para trazer bons espetáculos teatrais. Os grupos de teatro com repercussão internacional possuem uma agenda lotada, o que já não ocorre na mesma proporção com as companhias de dança. Há que se ressaltar o alto nível de qualidade das companhias brasileiras, comparativamente ao que as estrangeiras apresentaram em Londrina. Os aclamados Cisne Negro (SP) e Quasar (GO) ratificaram o nível técnico refinado e a pesquisa na cultura brasileira.
Os Projetos de Maio, proposta de incursão cultural criada em 2000, sempre foram questionados pelo caráter transitório em que acontecem na maioria dos projetos apresentados. Da perspectiva dos participantes, a incursão social de caráter sazonal fica diluída e fragilizada, como constatou a reportagem da Folha2 em algumas entrevistas, durante a cobertura do evento. Muitos participantes reivindicaram um trabalho de continuidade.
Dos espetáculos marcantes, ‘‘Aiguardente’’, um solo da catalã Marta Carrasco, produziu grande expectativa sobre os outros dois espetáculos da coreógrafa e bailarina. Marta Carrasco mostrou o poder criativo feminino e a formas múltiplas em que a dança-cênica pode atingir. O bom e velho teatro, apoiado numa dramaturgia sólida, com atores tarimbados e direção invisível foi a proposta de ‘‘Copenhague’’, do Teatro de La Gaviota. Poucos privilegiados puderam assistir a essa montagem uruguaia. Eles fizeram apenas uma única apresentação no Teatro Zaqueu de Melo.
Ousada também foi a encenação da companhia argentina de Federico León, diretor e dramaturgo espanhol que instigou o público com ‘‘1.500 Metros Sobre el Nível de Jack’’. Quase sem entender o texto, um relato não linear de uma família, a leitura imediata recaiu sobre a atual situação da Argentina: uma fase de impotência e desespero.
Das poucas comédias presentes, duas se destacaram: ‘‘Bárbara Não lhe Adora’’, da Janeiro Produções e ‘‘Hermosura’’, da Compañia el Descueve, da Argentina. A primeira, uma comédia carioca criticando de forma bem-humorada os bastidores do teatro. O musical argentino agradou pela verve brega, próxima à linguagem do cineasta Pedro Almodóvar, mas sem o colorido kitsch.
Perturbadores ou densos, os espetáculos desse ano do Filo 2002 conduziram o público por caminhos mais introspectivos, a conhecer segredos encarcerados em zonas sombrias. Nesse filão, estão ‘‘Histórias de Família’’, do Chile, ‘‘Colóquio Dentro de Um Ser’’, com Leonardo Hernandes e Rômulo Augusto; e ‘‘Sebastião’’, com o grupo brasiliense ‘‘Basirah’’.

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