Dança sem direção
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de julho de 2016
Murilo Pajolla<br>Especial para Folha2 


Não é de hoje que a arte luta para se libertar das rédeas do formalismo e horizontalizar o processo de criação. A arte urbana, que ganhou popularidade mundial na década de 80 com o grafite, propôs o abandono das telas e a utilização das paredes da cidade como suporte. Na década de 20 fundou-se na Rússia a primeira orquestra sem maestro, inspirada no ideal revolucionário de igualdade.
No próximo fim de semana, os amantes da dança de Londrina terão a oportunidade de conhecer de perto o funcionamento de uma companhia de dança israelense que trabalha sem diretor, nem coreógrafo e se apoia na criação coletiva. A Maria Kong Dancers Company, sediada em Tel Aviv, foi fundada pelo bailarino londrinense Anderson Braz, ex-integrante do Ballet de Londrina, e ganhou relevância mundial ao unir corporeidade primitiva e tecnologia de palco para aprofundar a imersão do público.
Luciane Fontanella, membro da companhia há 5 anos, emprestará sua sensibilidade e experiência profissional para coordenar o workshop "Maria Kong Criação e Movimento", que será realizado a partir da próxima sexta-feira (29) no laboratório 2 de Artes Cênicas da UEL. Com duração de três dias, o workshop tem custo de 80 reais para estudantes da UEL e 100 reais para a comunidade externa. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail [email protected]
Natural de Ribeirão Preto (SP) e com passagens pelo Balé da Cidade de São Paulo e pela Galili Dance Company na Holanda, Luciane conversou com a Folha 2 sobre a proposta do workshop e os desafios de estar na vanguarda da dança contemporânea.
Como é o dia-a-dia do trabalho em uma companhia de dança sem coreógrafo nem diretor?
É muito mais interessante, mas é mais desafiador. Porque você não pode simplesmente sentar ali e esperar que as informações e as respostas venham. Figurino, cenário, maquiagem, cabelo, lugares onde a gente vai fazer os espetáculos: é tudo decidido por coletivo. No evento "Mi Casa Su Casa" virei até produtora, porque temos que convidar os artistas, achar as locações e tudo mais. Eu me vi fazendo coisas que nunca pensei que fosse capaz de fazer. Por isso acho que a Maria Kong veio, eu diria, para abalar todas as estruturas. Não seguimos o formato tradicional das companhias de dança. Apesar de ter uma direção artística, os outros componentes do grupo são peças atuantes de todas as formas.
Estamos visando não um espetáculo, mas um momento que seja uma experiência de comunicação entre os intérpretes e o público. Não apenas um show de dança. Queremos nos comunicar através da arte. A tecnologia, o som e a música são fatores essenciais para a performance, não são simplesmente elementos de adorno, são essenciais para desenvolver uma linguagem que permita uma interação direta entre o intérprete, o movimento e a tecnologia. Por exemplo, para a nossa performance "Open Source" foram desenvolvidas luvas digitais que acionam sons ao vivo. Aí o interprete se relaciona e interfere no efeito visual e vice-versa. No formato tradicional você é somente um interprete, mas aqui somos figuras atuantes.
Em que medida essa divisão de tarefas afeta o trabalho do dia-a-dia?
Enquanto nas companhias tradicionais todos os integrantes têm aulas de manhã para preparar o corpo, na Maria Kong cada integrante é responsável por cuidar do seu treinamento, de se manter em forma e chegar pronto para trabalhar no dia. Os ensaios não têm os assistentes de coreografia, que é uma criação coletiva. No estúdio não há espelhos, pois cada um deve ser o espelho do outro, nós todos devemos nos refletir. Estamos todos envolvidos no processo de criação, tanto fisicamente, no processo de movimento, como na história. Toda criação é uma criação do time, uma coisa coletiva. Desde a vibração do som, que é um fator essencial para o intérprete sentir e decisivo para o desempenho da performance, até a luz: tudo é estudado com muita dedicação pelo time todo.
O que os londrinenses podem esperar do workshop "Maria Kong Criação e Movimento"?
É importante dizer que nós não somos professoras de dança. A intenção é compartilhar experiências, não apenas as minhas. Fazer perguntas juntos e não necessariamente achar as respostas, explorar. Venho para compartilhar com os presentes aquilo que a gente acredita, para mostrar a nossa ideologia e aprender com as experiências de todos. Durante esses três dias, vamos ser uma companhia de dança nos moldes da Maria Kong, sem essa rigidez de professor e aluno.


