Curitiba - Dezessete bailarinos dançam sob, sobre e entre obras de arte. Interagem com os trabalhos de Cildo Meireles, Chelpa Ferro, Victor Arruda e Gringo Cargia. O resultado é tão inusitado quanto elefantes em loja de cristal. É essa a imprensão ao ver os bailarinos executando movimentos milimétricos entre 90 vasos chineses pintados a mão. E essa é apenas uma das coreografias de ‘‘4 por 4’’, novo espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker, que mais uma vez subverte o espaço ao promover um casamento da dança com as artes plásticas.
O espetáculo estreou em Porto Alegre na semana passada. Hoje e amanhã, a companhia se apresenta em Curitiba e no próximo dia 28, segue para Campo Mourão. Depois, invade o eixo Rio-São Paulo e continua a agenda internacional, a exemplo dos espetáculos anteriores da companhia.
Para Deborah Colker, que criou a companhia há nove anos, estrear no Sul é quase uma superstição. Foi assim também em ‘‘Casa’’ (1999) espetáculo anterior. Depois dele, onde Debora já havia ensaiado o mergulho da dança nas artes plásticas, a companhia passou a esboçar ‘‘4 por 4’’. Foram quase dois anos de pesquisas e ensaios até o resultado final, mas Deborah revela que a idéia já vinha sendo esboçada antes.
‘‘4 por 4’’ é resultado das inúmeras viagens da companhia e consequentes visitas a museus nacionais e internacioanis da coreógrafa. Os primeiros passos de ‘‘Cantos’’, primeira coreografia do espetáculo, por exemplo, surgiram numa exposição no Museus de Arte Moderna (MAM) do Rio, quando Deborah visitou a exposição de Cildo Meireles e se deparou com ‘‘Cantos’’, um conjunto de 32 obras do artista. ‘‘Quando você vê um espaço você não vê todas as possibilidades que ele oferece, quando você retira os cantos dele, pequenas ilusões aparecem’’, observa. Foi assim que seis cantos foram retirados do conjunto da obra e levados ao palco. Dentro, fora e entre eles, os bailarinos executam uma dança sensual. ‘‘Tem até salto alto. Eu nunca tinha colocado uma bailarino de salto alto antes’’, brinca Deborah.
‘‘Cantos’’ aliás, é a única coreografia onde a obra surgiu antes do espetáculo. As outras, foram criadas em conjunto. Como a coreografia seguinte, ‘‘A Mesa’’, com obra criada pelo quarteto Chelpa Ferro (formado pelos artistas plásticos Luiz Zerbini e Barrão; o editor de imagens Sergio Miekler e o produtor musical Chico Neves). Eles criaram e recriaram uma mesa de ferro, de 1x60 por 1x20 metros, até que a obra se adaptassse aos movimentos dos artistas.
É nesse (pequeno) espaço que os bailarinos desenvolvem a coreografia. Nada extraordinário, a príncipio, se esse espaço não se movimentassem de um lado a outro do palco. Na mesa também estão acopladas as caixas de som e ‘‘uma surpresa bem humorada’’ que Deborah prefere guardar para os espectadores.
Na coreografia seguinte, ‘‘Povinho’’, Victor Arruda foi convidado a criar uma das suas ‘‘obras para serem pisadas’’ não só como cenário, mas como espaço a ser descoberto. Em ‘‘Povinho’’, tudo é uma descoberta, como observa Deborah. ‘‘Como crianças, os bailarinos descobrem todos os buracos do corpo, o cotidiano secreto do ser humano’’.
O pano de fundo da coreografia é um painel de 12m x 14m, que ocupa do chão ao teto. Nele, os bailarinos dançam ao som de ‘‘Someday my prince will come’’ (de
Branca de Neve, da Disney), único quadro em que a música não foi criada especialmente para o espetáculo.
Depois de uma incursão ao país das maravilhas, como ela classifica a coreografia sobre a obra de Arruda, o público vai poder respirar (ou parar) em um momento singelo. Lírico quase. Depois de anos afastada do piano, instrumento que aprendeu a tocar quando criança, a coreográfa toca a Sonata nº 11 em Lá Maior, de Mozart. O quadro remete, conforme conta, aos artistas Velasques e Degas. Há duas novidades na coreografia, o fato de Deborah voltar ao piano e dos movimentos serem clássicos. ‘‘As meninas dançam em ponta’’, adianta a coreógrafa. O que não confere uma coreografia exatamente clássica, já que Deborah, mais uma vez, promove um barulhento diálogo com a vertente moderna.
A última instalação do espetáculo, intitulada ‘‘Vasos’’ é a mais inusitada, tanto pela dificuldade do trabalho quanto pelo resultado final. ‘‘Foi um desafio’’, admite Deborah. Em ‘‘Vasos’’, os bailarinos dançam entre 90 vasos chineses, cuidadosamente dispostos no espaço de um metro na vertical e um metro na horizontal. Ora os movimentos acontecem entre eles ora debaixo, quando as peças são içadas por cabos de aço.
Essa subversão do espaço sempre esteve presente nos espetáculos da companhia. ‘‘Meus cenários nunca foram decorativos, eles fazem parte da movimentação’’. É uma tentativa, segundo ela, de fazer uma conexão com o mundo contemporâneo. Quanto à ‘‘4 por 4’’, ela conclui: ‘‘achei que tinha feito um espetáculo singelo, mas quando ele foi levado ao palco percebi que ele é vigoroso, explosivo.’’
Serviço - ‘‘4por4’’, da Companhia de Dança Debora Colker. Hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Guaíra. Ingressos a R$ 30,00 (Platéia), R$ 25,00 (1º balcão) e R$ 15,00 (2º balcão).

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