Dança para expandir sentidos
Andrew Eccles/DivulgaçãoCompanhia Stephen Petronio em Not Garden: dança para ver, cheirar, sentir e sonharDANÇA PARA EXPANDIR SENTIDOS
A Companhia Stephen Petronio subverte e recria conceitos em espetáculo multimídia
Francelino França
A Companhia Stephen Petronio aterrisou em Londrina, durante o Filo, com a missão de esmagar com os pés nossas limitações diante dos atuais rumos da dança e expandir nossos sentidos. E conseguiu. Not Garden, espetáculo apresentado no Cine-Teatro Ouro Verde, é subversivo no primeiro movimento, pelo desembaraço e agilidade com que o bailarino dialoga com a singela música Ave Maria, de Gounod.
O impacto inicial dos nomes projetados no proscênio, somada à trilha original de David Linton, nos remete ao universo do videoclip. Margareth Tatcher, Sadan Houssein, Adolph Hitler, Pinochet, Eva Braun, every president..., nomes emblemáticos saltando diante da tela, num ritmo galopante. Dentro da proposta do cenografista Tal Yarden, as imagens projetadas eram imagens do inconsciente, ainda distantes de uma definição racional.
Os elementos escolhidos pelo coreógrafo na composição cênica do espetáculo nos remete à multiplicidade de acontecimentos no qual vivemos, onde é imprescindível fazermos múltiplas escolhas. Em Not Garden, o espectador precisa optar. Ou é devorado pelo peso dos nomes projetados, ou se entrega à refinada composição cinética.
De um lado, esses nomes representam toda forma de poder que fizeram a história deste século. São figuras que usaram meios inimagináveis de violência, souberam sofisticar a barbárie. Essa projeção invadiu a imaginação do público, num ritmo ensandecedor. Como contraponto, em determinado momento do espetáculo, Stephen criou o movimento da resignação, onde os bailarinos eram anônimos curvados diante do poder, resvalando por vezes na letargia física.
O espetáculo Not Garden é uma paisagem ardente. O balé clássico dá suporte e fundamento à proposta intuitiva e técnica do coreógrafo. O domínio dos movimentos dos 10 bailarinos escandalizava, tamanha a volúpia visual.
No fenômeno da dança contemporânea, a companhia comprova que as inovações coreográficas são interdependentes. O dinamismo da criação de Stephen Petronio abrange o real-imaginário, a análise-síntese, a sensação-intuição e o pensamento-sentimento. Not Garden nos remete a um estado de surpresa criado por imagens inovadoras. Esse espanto excita nosso lado cartesiano de ver o mundo.
O balé apresentado no Cine-Teatro Ouro Verde não se fecha em torno de verdades, simplesmente porque é transitório. Isso exige do público. O espectador de Not Garden não sobrevive no cercado da passividade, precisa se expandir. E justamente nessa vértice é que reside o poder da arte, quando ela nos dá a possibilidade de experimentar a sensação de expansão dos sentidos, num finito espaço de tempo.
Excluída do instigante universo sonoro Not Garden, Stephen Petronio também nos brindou com uma coreografia silenciosa, dançou sem música. Ele cortava com seus movimentos afiados o aroma de um jardim imaginário, desvendando através da dança o quase impenetrável labirinto do inconsciente.





