Depois de retornar recentemente de uma semana de apresentações consagradas em Lyon, Paris, com teatro lotado e sessões extras, chegou a vez da Companhia Márcia Milhazes Dança Contemporânea receber os aplausos do público do 23º Festival de Dança de Joinville, que se encerra no dia 30. No último sábado, a coreografia ''Tempo de Verão'', de Márcia Milhazes, foi aplaudida de pé pelo público, que praticamente lotou o Teatro Juarez Machado, fechando a 5 Mostra Contemporânea. Os bailarinos Al Crisppinn, Ana Amélia Vianna e Pim Boonprakob dançaram ao som de colagens de valsas e, com desenvoltura, mostraram três aventuras com encontros e desencontros, marcadas pela sensualidade e harmonia dos movimentos. O espetáculo, que teve duração de uma hora, foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como o melhor do ano passado. Outra boa notícia é que há chances do grupo vir a se apresentar no 3º Festival de Dança de Londrina, que acontece de 11 a 16 de setembro.
Apesar de se considerar tímida, Márcia Milhazes não se acanha quando o assunto é dança e o objetivo é ousar. Defende uma dança que tem algo mais para comunicar ao público e instigá-lo a sair do ''olhar preguiçoso'', como costuma dizer. Algo que pôde realmente ser vivenciado na apresentação de ''Tempo de Verão''. Não houve como sair imune dos gestos que falam não uma linguagem óbvia, mas algo sutil que tem como idéia passar para o espectador a reflexão sobre a solidão humana e a constante busca pelo outro seja numa relação amorosa, casual ou de amizade. ''Fujo da literalidade, do óbvio. Quero mostrar que o ser humano pode pensar de maneira diferente e achar outras formas de falar dos sentimentos. A arte tem que instigar o outro a sair da mesmice'', afirmou a coreógrafa, que montou a sua companhia em 1994 e tem a elaboração da complexa gestualidade embutida em suas obras coreográficas como fruto da investigação da cultura brasileira na música, literatura e artes plásticas.
Tendo como pano de fundo a complexa harmonia das valsas, Márcia também expressa que por trás da sugestão de romantismo que esse gênero musical pode dar, muitas vezes esconde-se uma melancolia profunda, descoberta que veio à tona na sua pesquisa literária para a criação da obra que durou um ano e meio para ser finalizada. Para ela, o bailarino que gosta de chamar de intérprete precisa levar em consideração as suas próprias vivências na hora de interpretar para que passe verdade no que está ''traduzindo em forma de dança''. ''O corpo está falando e é necessário buscar coerência com aquilo que você quer falar. Além disso, o corpo tem que estar competente para comunicar'', destacou.
Com um figurino que priorizou pelas transparências e uma concepção de luz onde predominaram os tons em rosa, não foi difícil se deixar levar pelos compassos de Márcia e se encantar. O cenário primoroso, criado pela também talentosa Beatriz Milhazes (irmã da artista), que por questões técnicas do teatro não pôde ser utilizado de forma completa, também garantiu uma atmosfera visual propícia para o ''mergulho'' imaginário a que o público foi convidado a fazer. Do teto, caía uma espécie de móbile, como um grande lustre cheio de penduricalhos e flores de metal que chegavam a tocar a cabeça dos bailarinos, que, com delicadeza e vigor, continuavam a desenvolver os seus movimentos, belos e profundos.
A jornalista viajou a convite da organização do 23º Festival de Joinville

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