Lidar com sonhos e torná-los possíveis através da democratização da arte é um dos objetivos da ONG Musicarte, de Cornélio Procópio, que desde 2003 vem oferecendo aulas gratuitas de balé clássico para crianças carentes da cidade em parceria com a Funcart de Londrina. Atualmente 100 crianças fazem parte do projeto que já realizou duas apresentações de dança em alto estilo. Priorizando pelo profissionalismo, a entidade prova que quando há força de vontade, seriedade e apoio financeiro os sonhos se tornam realidade e, melhor, projetam para o futuro o talento até então adormecido de tantas crianças.
O balé exige disciplina, dedicação, concentração e seriedade e isso não é problema para as crianças. Elas contam que até gostam quando a professora as corrigem. '' Sei que é para o meu bem, para eu ficar melhor'', comentou a aluna Ana Flávia de Campos, 12 anos, que sonha em ser bailarina profissional. Sua colega, Carla Beatriz de Moura, 9 anos, chegou a ficar doente enquanto aguardava o resultado da lista de espera. ''Fiquei muito feliz quando passei e acho que estou mais responsável agora.'' O aluno Alberto Henrique Canales Santana, 10 anos, que antes frequentava aulas de dança rítmica, também adora as aulas de balé e elogia a atenção que a professora dá aos alunos. ''Pode até dar o horário dela, mas ela fica com a gente até tudo sair certo'', falou.
Essas exigências também se refletem na vida dos alunos. Melhoram na escola, aprendem a lidar com os próprios desafios e melhoram a auto-estima: descobrem que mesmo com dificuldades podem se superar e sentir o prazer de ver um trabalho de um ano resultar em milhares de aplausos, como no final de 2004, quando quase duas mil pessoas prestigiaram a apresentação do balé ''La Boutique Fantasque - A Loja Encantada''.
A história se passa no final do século XIX, na França, sobre uma famosa loja de brinquedos que ganham vida e demonstram a importância da amizade, depois que um ladrão tenta roubá-los. Para a montagem, os alunos estudaram o contexto cultural da época, as roupas que eram usadas e o conflito entre americanos e russos, que também é mencionado na encenação.
A professora de balé Rosangela Homem Pereira, que é terceirizada pela Funcart para o projeto, enfrenta todos os dias 120 quilômetros para dar aulas para as crianças. Satisfeita com o trabalho, ela diz que a maior motivação é fazer parte de um projeto que também é social. ''É um trabalho especial onde temos uma dedicação intensa e podemos acompanhar a evolução das crianças, verificar que elas percebem que são capazes.''
Acostumada a lidar com crianças carentes de Londrina, onde durante seis anos deu aulas de balé na Funcart, Rosangela explica que não há diferença na realidade difícil que muitas delas vivenciam. ''Há crianças com problemas na família, com diversos tipos de carências, problemas emocionais. Na medida da necessidade, procuro ajudá-las, conversar com os pais, mas tudo isso buscando um vínculo que que não atrapalhe. Eles não podem ser dependentes, têm que desenvolver a autonomia e acreditar que podem superar as dificuldades'', destacou a professora.
Nem um pouco desanimada com as exigências que o trabalho exige, Rosangela elogia a iniciativa. ''É muito raro cidades pequenas iniciarem esse tipo de trabalho, principalmente pela falta de apoio direto do poder público. Se houvesse mais consciência da importância desse trabalho, acredito que mais iniciativas como essa estariam em andamento por todo o país'', argumentou.

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