DANÇA - Parceria sinuosa
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domingo, 23 de novembro de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A bailarina Záhrroe reforça o exotismo da dança do ventre apresentando-se com uma jibóia. Coreografia, que será mostrada hoje em Londrina, integra o espetáculo de formatura de uma escola
Nas décadas de 40 e 50, uma dançarina brasileira ficou conhecida e causou furor por dançar com serpentes. Era Luz del Fuego. Mas a atração da dança com cobras vivas também está, há muito tempo, incorporada à cultura oriental através da dança do ventre. É esse número que a dançarina Zhárroe vai mostrar pela primeira vez em Londrina, no encerramento do espetáculo ''O Encanto da Dança Sagrada'', que acontece hoje, às 20 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde.
No espetáculo desta noite, 55 alunas da Escola Zhárroe de Dança do Ventre vão apresentar 20 coreografias. Além disso, o evento terá a presença de dois dançarinos de Dabke (dança folclórica árabe masculina) e um derbakista (que toca o instrumento derbak), vindos de São Paulo. Zhárroe vai mostrar dois solos um deles é a Dança Sagrada com a jibóia.
Esta é a primeira vez que Zhárroe, 32 anos, dança com uma serpente em Londrina, numa apresentação aberta ao público antes ela só havia mostrado a performance em sua escola e em um festival de dança em Guarapuava. O número especial marca os 10 anos de carreira da dançarina.
Zhárroe conta que há um ano ganhou de um amigo a cobra Sadik, uma jibóia de 1,5 metro e aproximadamente sete quilos. Nesse tempo, ela vem aprendendo a lidar com a companheira. ''Tinha contato com a serpente todo dia para adquirir segurança. Ela não é venenosa, mas não é bom brincar''. Zhárroe diz que sua inspiração em dançar com uma serpente nada tem a ver com as performances de Luz del Fuego. ''Em agosto fiz um curso com a bailarina Zur Yasbek, em São Paulo, sobre dança com serpentes e me encantei''.
É a própria dançarina quem cuida da alimentação da jibóia: ratinhos brancos vivos. A cada 20 dias, a faminta Sadik devora três bichinhos desses e leva até sete dias para digeri-los. A cobra vive em uma caixa de vidro na escola de Zhárroe.
No show, a dançarina utiliza a cobra como uma parceira, durante os seis minutos da coreografia. O mais difícil, segundo ela, é manusear a serpente. ''Tem que saber onde e como segurar, e também como improvisar. Às vezes ela se enrola demais e não quer soltar. Tem que ter calma'', comenta.
A dançarina nunca levou uma mordida de Sadik, mas tem o maior medo de literalmente se enrolar com a cobra. ''Mordida nem é o problema, mas a jibóia pode se enrolar e apertar a gente. Pode até matar por asfixia'', diz. ''Para isso eu cuido de não estressá-la. O improviso na dança é fundamental nessas horas''. Zhárroe também ensina que não é bom passar muito perfume, mexer com alho ou álcool antes de chegar perto de Sadik.
Os movimentos da dança do ventre estão ligados a uma série de símbolos e o arquétipo da serpente é um deles. Reverenciada em vários mitos, lendas e rituais desde a pré-história, a serpente representa uma força regeneradora, ligada à fertilidade, à sensualidade, ao poder de morte e renascimento.
Na dança do ventre, as bailarinas costumam usar espadas, véus, candelabros e cobras em suas performances. As cobras também poderiam estar ligadas a misteriosas culturas antigas, por ser um símbolo complexo que representa o masculino e feminino e também a imortalidade na forma da cobra comendo o seu próprio rabo.
Antigamente, as bailarinas dançavam com uma serpente de metal, já que o animal era considerado sagrado e símbolo da sabedoria. Justamente por isso, a serpente era apenas representada pelos adornos utilizados pelas bailarinas e pelo movimento do seu corpo. Hoje são utilizadas na dança cobras de verdade e há defesas para que isso seja visto apenas como um show de variedades.
Há ainda quem diga que a dança da serpente está ligada ao simbolismo do bem e do mal. Nela o profano e o sagrado são contemplados pela beleza dos movimentos, sem se perderem na sedução do poder.
Serviço:
- ''O Encanto da Dança Sagrada'', espetáculo da Escola Zhárroe de Dança do Ventre. Hoje, às 20 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. Ingressos a R$ 10,00 (antecipado) e R$ 12,00 (depois das 13 horas) - estudantes e maiores de 65 anos pagam meia. Patrocínio: Cedro Hotel e Virtual.


