DANÇA - Movimentos do desejo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de março de 2006
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Katia Michelle Pires
Equipe da Folha
Curitiba - O desejo dói, enrosca, agride, agrada e envolve todos os poros da pele e dos músculos. O desejo é urgente, é necessário é violento e sutil. O desejo é o que move. E foi o que motivou a coreógrafa Deborah Colker a criar o seu mais recente espetáculo -Nó- inspirando no universo intenso e pulsante do desejo. A coreografia estreou no ano passado, na Alemanha, e já passou por temporadas no Rio de Janeiro, São Paulo e outros estados brasileiros. Chega agora a Curitiba para duas apresentações no grande auditório do Teatro Guaíra.
Dividida em dois atos, a montagem leva ao palco um emaranhado de quase uma centena de cordas no primeiro e uma gigantesca caixa transparente, no segundo. O cenário foi criado com o objetivo de personificar o desejo. Eu tentei traduzir o desejo no espaço e percebi que o nó, as cordas, as amarras, é uma tradução perfeita, disse a coreógrafa em entrevista ao Folha 2. Para ela, é o desejo que move o ser humano desde a mais remota história até os dias atuais. Desde a infância até a morte. Em toda a vida, a gente aprende a administrar os desejos, às vezes complexos, às vezes proibidos, às vezes incompreensível. E foi esse universo intenso que inspirou essa coreografia.
A idéia de montar o espetáculo surgiu há três anos, numa apresentação do espetáculo Casa, em Berlim. A diretora do espaço em que a companhia de Deborah se apresentou encomendou uma novo trabalho para ser o prólogo do espetáculo principal. Eu fiquei pensando no que poderia falar. Eu vinha de uma montagem que falava do cotidiano e queria mergulhar ainda mais na condição humana, num assunto que não é palpável, conta Deborah. A conotação dos sentidos e da percepção começou a tomar forma no mini-espetáculo Ela,uma coreografia de 15 minutos. O tema, no entanto, rendeu e a coreógrafa decidiu destrinchá-lo no novo espetáculo.
Deborah levou mais de dois anos para elaborar a atual montagem, que tem co-direção de Flavio Colker. No primeiro ato do espetáculo, os bailarinos se movimentam em meio a mais de uma centena cordas. Cordas que dão nós e simbolizam os laços afetivos. Cordas que aprisionam, puxam, ligam e libertam. Além de ensaios exaustivos para lidar com o acaso dos movimentos das cordas, a companhia também investiu em novas técnicas, como a bondage, que utiliza cordas para controle da dor, do movimento e do prazer, e também o conhecimento de vários tipos de nós, aprendidos com um marinheiro.
A construção do espetáculo também foi auxiliada por conceitos filosóficos. Para dar conta da complexidade do tema, a companhia modificou o seu sistema de trabalho e, paralelamente aos trabalhos físicos, introduziu aulas de filosofia com o professor Fernando Muniz. A companhia também se valeu da memória e da experiência individual para montar as cenas. È um espetáculo que exige muita entrega e obviamente trabalha com as fantasias de cada um, revela Deborah.
No segundo ato, saem as cordas e o palco é ocupado por uma caixa transparente de 3,1 x 2,5 metros, uma criação do cenógrafo Gringo Cardia. A inspiração veio de uma viagem que Deborah fez a Amsterdã, na Holanda, onde visitou o Red Light District (Bairro da Luz Vermelha), em que garotas de programa se expõem em vitrines nas fachadas das casas. O aquário é feito de alumínio e policarbonato - material usado na blindagem de carros. Entre um ato e outro, um intervalo de 18 minutos.
Para finalizar , os bailarinos dançam ao som de Elizeth Cardoso em Preciso aprender a ser só. Nessa música, a sonoridade do desejo é cortante. Aliás, o caminho do desejo é cortante. E muitas vezes, suave e delicado. E o espetáculo acompanha esse caminho na sonoridade.- diz. No primeiro ato, pela primeira vez numa coreografia assinada por Deborah, ela utiliza um adágio inteiro de Ravel. Dura 10 minutos, mas é uma dessas músicas que você não ouve pela corrente sanguínea, ouve pelo coração. O segundo ato começa com Chet Baker (My one and only love) e transcorre sob um fundo musical que inclui Moacir Santos (Coisa nº 9), o tema de Spartacus, encerrando com Elizeth.
A ficha técnica traz os nomes que acompanham Deborah desde o surgimento da companhia. Jorginho de Carvalho é responsável pela iluminação, João Elias é o diretor-executivo, e a direção musical é de Berna Ceppas, que desta vez optou por uma trilha menos pop e mais conceitual. A novidade é uma parceria inédita com o estilista Alexandre Hercovitch, que assina os figurinos.
Nó é a sétima coreografia da companhia. Desde 1994, a companhia já lançou Vulcão, Velox, Mix, Rota, Casa e 4 por 4, apresentados com sucesso em países como Inglaterra, Itália, Alemanha, Áustria, França, Nova Zelândia, EUA, Canadá, Argentina, Colômbia e Chile. Com o espetáculo Mix, a coreógrafa ganhou em 2001 o prêmio Laurence Olivier, um dos mais prestigiados das artes cênicas em Londres, na categoria Outstanding Achievement in Dance (Destaque em Dança).
SERVIÇO
- Espetáculo Nó, da Companhia de Dança Deborah Colker. Dias 1, às 21 horas e 2, ás 19 horas, no Teatro Guaíra. Ingressos a R$ 80, R$ 60 e R$ 40,00 (meia-entrada para estudantes e para o público que doar um livro para a Associação Amigos do HC. O livro poderá ser entregue no ato da compra do ingresso, nas bilheterias do teatro, ou na hora do espetáculo).


