DANÇA - Marcas da violência
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de março de 2006
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O que você entende sobre violência? Provavelmente é diferente do que um presidiário entende e a resposta varia ainda quando dada por alguém que já foi vítima dela. O que pode existir em comum na questão é como a violência está gravada na memória corporal de cada pessoa é o tema do espetáculo ''Violência Violada'', da coreógrafa e bailarina Marila Veloso. A montagem é resultado do projeto contemplado pelo Prêmio Funarte Petrobrás de Fomento à Dança e está em cartaz na Casa Vermelha, em Curitiba. O grupo formado por cinco pessoas, entre atores e bailarinos, começou a ensaiar em janeiro e criou coletivamente o espetáculo sob o tema proposto pela coreógrafa.
O espetáculo, aliás, era para estrear dentro das dependências do Presídio do Ahú, em Curitiba, mas a apresentação foi adiada por questões de segurança. ''Eu sempre quis trabalhar com detentos e saber como eles encaram essa questão da violência. O espetáculo surgiu desse desejo. Não deu certo a primeira apresentação no presídio, mas entendo que ela foi apenas protelada'', revela Marila. O espetáculo chegou a ser apresentado para agentes de segurança, que fizeram uma triagem do que poderia ou não ser apresentado aos detentos. A única recomendação teria sido sobre o figurino dos artistas, que não poderia ser, digamos, muito ousado.
Mas mesmo depois de aprovado o espetáculo e realizadas as devidas ''alterações'', a montagem ainda não pode ser apresentada no presídio, portanto, a coreógrafa ainda não obteve a resposta para o que mais a fascina nesse tema. ''Eu gostaria de transformar a violência num assunto para reflexão. Eu não tenho controle sobre isso e não sei se os detentos ou o público em geral vão pensar sobre a questão, mas esse é o meu desejo'', diz Marila.
Para criar o espetáculo, que não traz necessariamente um roteiro, os atores partiram de experiências próprias e pesquisadas no cotidiano. ''A agressividade e a violência fazem parte da espécie humana. É um tema pertinente a todos'', explica a diretora. Por isso, as cenas têm criação coletiva e apenas uma delas tem coreografia assinada por Marila. A criação das cenas teve como ponto de partida, além das experiências individuais, temas como a física quântica, a ocupação do espaço e textos de Michael Foucault.
Sobre o fato de mesclar no grupo, bailarinos e atores, a coreógrafa explica: ''O corpo do ator e o bailarino é o mesmo. Hoje não tem como um ator encenar sem trabalhar o corpo e nem como um bailarino dançar sem trabalhar a voz''. O grupo é formado, além da diretora, por Eduardo Giacomini, Gladis Tridapalli, Leonardo Taques e Rosemeri Rocha. A trilha sonora original foi criada por Demian Garcia. A direção e a cenografia tiveram colaboração da atriz e diretora Olga Nenevê. E o figurino, aquele que foi ''censurado'' para ser levado ao presídio, é assinado por Eduardo Giacomini e pelo grupo, que trouxeram à cena, roupas confortáveis do dia-a-dia.
Serviço:
- Espetáculo de dança contemporânea ''Violência Violada''. Apresentações de quarta à sábado, às 21 horas e domingo às 19 horas até o dia 12 de março na Casa Vermelha (Largo da Ordem, s/nº). Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00.


