Curitiba - Ela quer voltar a dançar. Não que Ana Botafogo, uma das mais importantes bailarinas brasileiras, tenha parado algum dia, mas o fato é que sua participação da Novela Páginas da Vida, exibida pela Rede Globo, desacelerou seus passos como a primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cargo que ocupa desde 1981. Novela encerrada, ela contabiliza as vantagens da experiência como atriz, comemora o fato de ter prestado vestibular para Dança, junto a outros colegas do balé, num curso personalizado ministrado pela instituição carioca UnicerCidade (com c mesmo) e já prepara novos projetos.
Um dos novos planos engloba um espetáculo de dança dedicado a Bibi Ferreira e que Ana aguarda patrocínio. Não deve demorar. Dona de muita disposição, Ana acumula pinceladas em várias áreas artísticas e também está ousando na administração e produção. Mantém uma academia de dança no Rio de Janeiro, lançou uma grife de roupas e acessórios que leva o seu nome e não pensa em parar por aí.
Ainda quer, depois da nova temporada do balé carioca, volta a se dedicar a atuação. ''Ser uma bailarina bem velhinha eu sei que não vou poder, mas quem sabe uma atriz bem velhinha eu posso'', brinca.
A bailarina esteve em Curitiba na semana passada para ministrar um masterclass exclusivo para alunas da Escola de Dança Stúdio D e também para autografar o livro ''Ana Botafogo na Ponta dos Pés'' (Editora Globo). No intervalo entre os dois compromissos, falou à Folha2. Acompanhe a entrevista:
FOLHA - A sua estréia na televisão ainda é muito recente, conte um pouco da sua experiência na novela Páginas da Vida.
Ana Botafogo - Foi ótimo investir nesse lado de atriz. Eu nunca tinha feito nada parecido, exceto algumas leituras cênicas para teatro, mas TV é muito diferente. Foi um convite muito inusitado, porque o Manoel Carlos fez o personagem para mim. Misturou ficção e realidade. Mas o que mais gostei foi mostrar para milhões de brasileiros como é dançar. Imagina mostrar para as pessoas que não estão habituadas ao balé, como é a roupa, a postura... Isso foi muito gratificante.
Popularizar o balé, a dança em geral, sempre esteve entre seus objetivos?
Eu sempre tive esse interesse, sim. Sempre usei a Música Popular Brasileira para mostrar um pouco do balé clássico. Sempre dancei em praças, parques, praias, para levar a dança para aquele público que não está habituado ao balé. No Rio de Janeiro, por exemplo, temos um projeto maravilhoso: o ''Dançando para não dançar''. Foi uma iniciativa da Tereza Aguilar e quando ela me apresentou eu fiquei encantada e me ofereci para ajudar. Então ela me chama de madrinha do projeto. Essa ONG já tem 11 anos de existência e já está em mais de dez comunidades cariocas. Começamos com 50 crianças e agora já são 450.
E qual é o seu envolvimento atual com este projeto?
A minha parte é a divulgação. Ou eu danço com eles, os levo para dançar ou levo a imprensa para vê-los. Hoje em dia muitos bailarinos do Teatro Municipal também estão dando aulas lá. Agora eles tem até uma sede, que fica na Mangueira, e ampliaram muito o atendimento. É um lindo projeto, que tem educado principalmente e resgatado a cidadania das crianças que participam.
E o livro que você veio lançar em Curitiba. Quando surgiu e do que ele trata?
Eu já tinha escrito um livro antes falando sobre os balés que eu tinha dançado (''Ana Botafogo na Magia dos Palcos'') e que serve como referência, pois conta um pouco a história dos balés que dancei. Esse surgiu da necessidade de contar um pouco mais sobre a bailarina Ana Botafogo. Todo mundo quer saber um pouquinho mais, então reunimos as perguntas que todos fazem, é um livro de entrevistas. São duas, uma com a jornalista Leda Nagle que fez a parte pessoal e a outra, mais profissional, que foi de entrevistas que concedi para a Dalal Achcar (bailarina e ex-coreógrafa do Teatro Municipal). Nós íamos fazer o livro em formato de perguntas e respostas, mas na realidade minha vida pessoal com a profissional acabam se juntando. E pra não ficar um livro redundante surgiu a idéia de congregar essas duas entrevistas. Não é uma autobiografia. Mas tem muito da minha vida depois que eu comecei a dançar, incluindo o período que estive em Curitiba, dançando com o Balé Guaíra.
E o livro acompanha um CD...
Pois é, poucas academias no Brasil podem ter o luxo de ter um piano na sala de aula. Na maioria dos lugares, os professores dão aulas de balé com CD. Meu sonho era poder fazer uma série de CDs com bons pianistas para balé. Com os andamentos corretos para os passos. Então agora deu certo, o Waldemar Gonçavez, pianista do Teatro Municipal do Rio, fez músicas inéditas para uma aula completa para o balé, com mais ou menos uma hora de duração e toda a sequência, desde o alongamento. Foi com esse CD que a Elisa deu suas aulinhas de balé em Páginas da Vida.
Voltando a novela... os boatos de que o Manoel Carlos entregava os capítulos em cima da hora procedem? Como você, que estava estreando na telinha, lidou com isso?
Os atores recebiam o texto muito em cima do laço e realmente a gente tinha que decorar rapidinho, mas os atores eram tão maravilhosos, que faziam. Era em cima da hora, sim, mas não era nada que o autor não tivesse avisado com antecedência. Na nossa primeira reunião, o Manoel Carlos avisou: 'Todo mundo sabe que eu escrevo em cima da hora. É meu estilo'. Na realidade todo mundo estava esperando. Mas não achávamos que ia ser tanto... Tinha dias que estávamos gravando e as cenas chegavam durante as gravações. Mas foi uma novela que acabou sendo muito prazerosa fazer. A gente se divertia.
E agora que tudo isso acabou, quais são seus projetos?
O ano passado eu não deixei de dançar, mas diminuí muitos meus espetáculos por causa da novela. Agora meu principal porjeto é voltar com as temporadas do Teatro Municipal e continuar com a minha turnê de ''Três momentos do Amor''. Nossa próxima temporada no Municipal é a do Lago dos Cisnes e a companhia também tem planos de montar a Dama das Camélias, ainda inédito no repertório. Em resumo, este ano, meu plano é dançar, porque bailarina não pode parar.

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