Quarta-feira, quatro horas da tarde. Quem passa pela frente do Club Albatroz, na região central de Londrina, nem imagina que, lá dentro, o baile já começou. O salão ainda não está cheio, mas a pista - de 9 por 18 metros, toda feita com pranchas de madeira - é disputada por casais que não abrem mão do prazer de dançar ''coladinho'' e de mostrar coreografias impecáveis, seja ao som de um bolero ou de um vanerão. José Cardoso Ribeiro, 66 anos, e Cleusa Therezinha Lobo, 65, formam um desses casais, que frequentam o salão não só às quartas, como aos domingos, no mesmo horário, quando a casa, que funciona normalmente à noite, sempre apostando na dança de salão, também abre suas portas para os aficcionados vespertinos. Eles adoram dançar e há mais razões para isso do que o simples prazer dos volteios sincronizados. Ambos viúvos, conheceram-se há quatro anos no local e, desde então, não mais se separaram, especialmente para dançar.
Ida Gira Melo Silva, 55 anos, e João Cardoso de Moraes, 65, também são frequentadores assíduos dos bailes da tarde. Têm até mesa cativa em um dos bons lugares do salão. Dançam todos os ritmos, ''menos tango'', como faz questão de lembrar João. Acreditam que ''a dança faz bem para o corpo e para o espírito''. Em todo caso, é certeza que se revela ótima para o coração, já que se conheceram entre uma dança e outra nesse mesmo salão e, desde então, estão namorando. Se o namoro, iniciado ao som de um bolero, vai resultar em casamento, ''só Deus e o tempo podem dizer'', filosofa Ida.
Mas, entre tantos pares, os solitários não correm o risco de se sentir deslocados. Como afirma Josina Rosa dos Anjos, viúva há 40 anos e com 82 anos de idade completados no último ''Dia dos Namorados'', em tarde de baile no Albatroz e, por isso, com direito a flores e a champanhe por conta da direção da casa, ''meu maior prazer é vir aqui e dançar''. Ela faz isso há 6 anos e nem sempre acerta o parceiro. ''Alguns dançam bem, mas outros não'', confidencia, risonha.
Justamente para não serem mal avaliados, muitos adeptos da dança preferem se preparar antecipadamente. É o caso de Issamu Kimura, 84 anos, que, como não pode praticar esportes devido a uma deficiência no braço, resultante de um tiro que levou em um assalto há 20 anos, optou pela dança de salão. Ele faz parte do grupo de terceira idade que se reúne para aprender a dançar, todas as sextas-feiras, das 14 às 16 horas, na Associação Cultural e Esportiva de Londrina (ACEL). O efeito dessa prática frequente não poderia ser melhor. ''Eu era que nem uma pedra quando comecei a aprender, há três anos'', conta Issamu, ''agora está tudo macio''. E por causa de todo o molejo conquistado no decorrer das aulas, ''eu danço com todas'', afirma, enquanto exibe volteios elegantes pelo salão com uma de suas parceiras.
À frente desse animado grupo da terceira idade, que não vê o tempo passar enquanto dança, está o professor Celso Tetsuru Suono, de 32 anos. Formado em arquitetura e urbanismo, com pós-graduação em moda, Celso leciona desenho no Centro de Ensino Superior de Maringá (Cesumar) desde 2001. Como ilustrador, valoriza todo tipo de linguagem, especialmente a corporal, típica dos dançarinos. Encara sua atuação na ACEL mais como diversão do que como trabalho. Quando se interessou pela dança de salão, ''por insistência das meninas que faziam parte do nosso grupo'', ele estava com 17 anos e era muito tímido. Descobriu, então, que ''a dança ajuda a socializar as pessoas'' e passou a encará-la como ''uma terapia, uma válvula de escape''. Dançando, seus
contatos se ampliaram e com coreografias cada vez mais elaboradas, chamou a atenção, passando a receber convites para fazer apresentações. Daí, para se tornar professor de dança, bastou um passo.
Para ele, não existem barreiras, raciais ou de idade, que impeçam alguém de usufruir do prazer da dança. ''Desde que esteja com vontade de aprender'', afirma, ''qualquer pessoa é capaz''. A dança de salão, segundo acredita, reflete uma parceria de vida, em que ''o homem conduz e a mulher é conduzida''. E é essa cumplicidade que continua encantando as pessoas, passe o tempo ou mudem os ritmos e as modas.

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