Os críticos desceram do pedestal. Já não são capazes de, com seus veredictos, arrastar platéias para os teatros ou afastá-las em consequência de um comentário demolidor no jornal. ''A figura mítica do crítico caiu por terra. O sujeito temido que assistia ao espetáculo e depois saía correndo sem contato com ninguém desapareceu'' diz o escritor e crítico de dança do Jornal do Brasil Roberto Pereira.
Ele está acompanhando, como convidado especial, o 1º Festival de Dança de Londrina. Na cidade desde o começo da semana já lançou um livro, proferiu uma palestra e participou de uma mesa-redonda. Para hoje, sua agenda reserva uma conversa com uma turma de adolescentes alunos de dança no período da mamhã e o encerramento da Oficina ''Crítica de Dança'' no período da tarde.
''Na verdade, sou um pesquisador. O exercício da crítica ocupa apenas uma parte de meu trabalho'' afirma. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, sob orientação de Helena Katz, ele é mestre em Filosofia pela Universidade de Viena (Áustria), com dissertação sobre o balé romântico Giselle. A tese virou o livro ''Giselle O Vôo Traduzido (da lenda ao balé)'', que ele veio lançar no Festival.
O título é o sexto de sua carreira de escritor, todos tematizando a dança. Há três anos, começou a publicar críticas de espetáculos no Jornal do Brasil. Para ele, a função vem se valorizando no país. ''Os jornais estão abrindo espaço para gente habilitada, o que é um bom sinal, já que até há pouco tempo pelo menos no Rio de Janeiro a crítica de dança era feita por críticos de teatro, que é uma coisa bem diferente''.
Para Pereira, as credenciais para legitimar um profisional da área não diferem daquelas aventadas para avalizar pares de metiê que atuam diante de outras linguagens artísticas. ''Os críticos de dança mais importantes do eixo Rio-SP não são jornalistas'' salienta. ''Claro que o fato de ser jornalista não impede ninguém de ser crítico, mas o diploma não lhe dá carimbo, não é um balizador nem mesmo para quem é repórter especializado. O exercício da crítica exige conhecimento da história da dança, de sua linguagem e de seus signos. Exige também uma certa formação em filosofia e estética para decodificar todos os elementos de um espetáculo. É uma empreitada e um desafio''.
Segundo ele, o papel desempenhado pela crítica sofreu abalos nas últimas décadas. Tomando a imprensa dos Estados Unidos como modelo, Pereira observa que a era do crítico todo-poderoso capaz de lotar ou esvaziar teatros com suas sentenças já entrou para o anedotário museológio. ''Isso acabou'' diz. ''Um crítico que fale bem ou mal não é um bom crítico. Bom é aquele que consegue destrinchar uma montagem, e tudo o que ela suscita, iluminando tanto os leitores quanto os próprios coreógrafos e bailarinos''.
É o que ele tem enfatizado nas Oficina de Crítica que tem coordenado pelo país. ''O objetivo desse curso é fomentar o surgimento de críticos em regiões distantes dos grandes centros'' explica. ''Acredito que uma cidade que conte com um festival e uma escola de dança, deva contar também com um público especializado e com um crítico por que não? A idéia é estimular os participantes para que pelo menos 1 ou 2 deles sigam em frente e cavem um espaço na imprensa local''.
Profissional requisitado, Pereira viaja pelo país a convite de eventos de dança. Por ser curador do festival ''Panorama RioArte de Dança'', promovido pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, ele chega aos lugares já conhecendo de antemão muitas companhias. ''Os festivais concentram um grande volume de informações. Recebo material do Brasil inteiro. Mas é na peregrinação que vou conhecendo os trabalhos desenvolvidos fora do eixo Rio-SP'' assinala.
Antes de vir a Londrina, esteve no Festival de Dança de Joinville. Daqui segue para Porto Alegre (RS) e depois Campina Grande (PB).

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