Dama salvadora e maldita
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quinta-feira, 12 de junho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Deitar com qualquer um sim, mas não com todos os pretendentes que se apresentam. Um código de ética entre os lençóis dos que fazem do sexo a própria vida. Muitas vezes, os que censuram esse tipo de comportamento desconhecem essa moral, se tornando, talvez, mais suscetíveis a dividir a alcova a qualquer preço.
''Bendita Geni'', espetáculo de rua do grupo londrinense Teatro de Garagem, estréia hoje, com reapresentação amanhã, no 40º Festival Internacional de Londrina (Filo). A travesti, que na ''Ópera do Malandro'' desfilou na música ''Geni e o Zepelim'', de Chico Buarque, deixa de ser um personagem da noite para ser dama à luz do dia no projeto de montagem teatral que venceu a primeira edição do Prêmio José Antonio Teodoro, promovido pela Secretaria de Cultura, através do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
''Acredito que o projeto foi aprovado pelos trabalhos anteriores da companhia. Pesou bastante também na escolha ser um espetáculo de rua. Para nós a aprovação foi um salto de qualidade para o grupo, a profissionalização e a formação dos atores'', afirma o diretor da companhia, Everton Bonfim.
A produção, que contou com os R$ 60 mil do prêmio, reúne um elenco de 14 pessoas, entre músicos e atores. Bonfim ressalta que a primeira montagem patrocinada da companhia pôde reunir alguns profissionais num total de 33 pessoas. A direção musical é de Edgar de Abreu, do grupo de percussão L.A.T.A e Miguel Arruda. As músicas originais foram compostas por Celso Branco, do Rio de Janeiro, e a preparação corporal do elenco foi de Paulo Roberto Líbano de Paulo
Ela ainda continua sendo namorada de qualquer um. Feita para apanhar e boa de cuspir. Apesar do destino maldito, é bendita entre todos os cidadãos de bem, que vêem nela uma redenção maior do que, simplesmente, a dos seus prazeres.
A travesti londrinense Scarlett O'Hara Costa interpreta a personagem num elenco que traz ainda Adelita Siqueira, Carolina Gambarini, Danilo do Amaral, Laura Lago, Lincoln Normando, Manuel Arruda e Vinícius Kafo e os convidados André Castanheira, Cahuh Spisla, Fernanda Lina, Jessica Rezende, Júlia Marques e Miguel Matoso Corrêa.
Bonfim escreveu o texto em 1998 para um grupo iniciante de Sertãozinho (SP). Na montagem atual, Geni ganhou um pouco do repertório de Scarlett. ''Aos 45 anos de idade, Scarlett trouxe para o processo toda a experiência própria. Ela não vai ser a Scarlett no espetáculo, mas a Geni, que convive com o preconceito, a inveja e a hipocrisia'', comenta Bonfim.
O diretor musical, Edgar de Abreu acrescenta que, no início, a travesti ficou com receio do trabalho e como seria a integração com o restante do elenco. ''Na verdade é o contrário. A Scarlett é uma pessoa divertida. É uma figura da noite, mas, ao apresentarmos a peça durante o dia, quem não está na noite pode conhecer esses personagens'', afirma Abreu.
A montagem em dois atos distancia a emoção do espectador, que pode observar com os olhos frios da reflexão o calvário de Geni a partir de um lugar privilegiado: a estética brechtiana. Teatro, circo e música tornam mais cômica a controvertida história de Geni. De condenada a louvada pelos homens, e também pelas mulheres, que têm um pouco de inveja de suas virtudes, é execrada depois de concordar em se deitar com um militar que prometia acabar com tudo, caso não fosse generosa com ele.
Geni teve a mão beijada por toda a cidade. O prefeito de joelhos até o bispo com os olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão, mas ainda assim, todos eles se juntaram ao coro para dizer que ela também era feita para apanhar. Essa dama é Geni...


