Canções que Dalva de Oliveira gravou com Roberto Inglez e sua orquestra são relançadas em CD da Revivendo
Um registro da história: quando Villa-Lobos dava aulas de música, ilustrava seus ensinamentos colocando na vitrola discos de Dalva de Oliveira. Assim, economizava palavras e mostrava aos alunos, na prática, o que eram ‘‘agudos perfeitos’’. Bidu Sayão também estava entre suas admiradoras, e a Rainha Elizabeth II foi vê-la na temporada no luxuosíssimo Hotel Savoy Plaza, em Londres, em 1952. Nessa época Dalva conheceu o maestro Roberto Inglez, gravaram 17 músicas e destas, 11 estão no CD ‘‘Dalva de Oliveira e Roberto Inglez e sua Orquestra’’, o mais recente lançamento da Revivendo Músicas.
Com este álbum o público tem oportunidade de ouvir Dalva e conhecer – no caso dos mais novos – a orquestra de Roberto Inglez. A parceria entre os dois é sempre citada nas biografias da cantora, mas faltava um trabalho como este, que sai do papel para os sons. O maestro foi um nome popular no Brasil e países latinos, nos anos 50, vendeu discos como os cantores mais queridos do público, realizou turnês nacionais e daqui viajou para outros pontos da América do Sul.
‘‘Dalva de Oliveira e Roberto Inglez e sua Orquestra’’ abre com Dalva interpretando ‘‘Ai, Ioiô’’ (Henrique Vogeler/ Luiz Peixoto), e em seguida tem ‘‘O Mulatinho’’, maxixe de 1924, de Belmácio Pousa Godinho. O repertório é apresentado nessa sequência, sendo que o maestro detém-se apenas na música brasileira. Com exceção da primeira e ‘‘Sururú’’, acredita-se que as demais sejam conhecidas do grande público ainda hoje.
Numa política de boa vizinhança, e de olho nas vendas, o maestro escocês nascido em Elgin, em 1913, esmerou. Gravou ‘‘Tico-tico no Fubᒒ (Zequinha de Abreu), ‘‘Bem-te-vi Atrevido’’ (Lina Pesce), ‘‘Olhos Verdes’’ (Vicente Paiva), ‘‘Brasileirinho’’ (Waldir Azevedo) e, de Ary Barroso, escolheu ‘‘Aquarela do Brasil’’, ‘‘Na Baixa do Sapateiro’’, ‘‘Rio de Janeiro’’.
O Trio de Ouro foi tão marcante no Brasil, com Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e Nilo Chagas, que depois da saída da cantora do grupo, tentaram-se outras formações. Para a artista não foi tão bom negócio assim estar no trio. Pois bem, ela chegou ao estrelato, mas por mais de dez anos foi impedida de alçar carreira solo. Um primeiro ensaio nessa direção foi a gravação do samba-canção ‘‘Segredo’’ (Herivelto Martins/ Marino Silva), em 1947. Separada de Herivelto, ficou um ano cantando na Venezuela. Volta ao Brasil no início de 1950.
Fatalmente tornou-se ídolo nacional e em 51 foi escolhida Rainha do Rádio. Como prêmio pelas vendas vertiginosas que seus discos alcançavam, a gravadora Odeon, à qual pertencia, mandou-a para uma temporada de seis meses na Europa, apresentando-se nos endereços mais elegantes de Portugal, Espanha e Inglaterra. O tratamento era de estrela internacional de primeira grandeza. Foi então que se deu o encontro com Inglez e a sessão em que a princesa Elizabeth II esteve presente, dois dias antes de sua coroação como rainha.
Numa época em que não havia a enganação dos ‘‘discos de ouro’’ e bobagens afins, Dalva de Oliveira ocupava vários postos nas paradas de sucesso. Chegou a figurar no primeiro, segundo e terceiros lugares destilando nas canções as amarguras que a torturavam. Dores de amores. ‘‘Fim de Comédia’’ (Ataulfo Alves) era uma delas: ‘‘Deste amor quase tragédia/ que me fez um grande mal/ felizmente essa comédia/ vai chegando ao seu final’’. O público cantava e sofria junto com sua artista muito amada.
‘‘Fim de Comédia’’ faz parte do CD da Revivendo, bem como ‘‘Kalu’’ (Humberto Teixeira), ‘‘Folha Morta’’ (Ary Barroso), ‘‘Carinhoso’’ (Pixinguinha/João de Barro), ‘‘Brasil Saudoso’’ (Tito Climent), ‘‘Sem Ele’’ (Humberto Teixeira) e duas canções natalinas: ‘‘Lindo Presente’’ (Oakeley/Mário Rossi) e ‘‘Noite de Natal’’ (Franz Gruber/Mário Rossi).
Dos números que se tornaram clássicos na voz de Dalva, estão nesta seleção somente ‘‘Kalu’’ e ‘‘Final de Comédia’’, apesar dos clássicos ‘‘Folha Morta’’, ‘‘Ai, Ioiô’’ e ‘‘Carinhoso’’. Mas é uma oportunidade valiosa conferir essas músicas na interpretação de uma cantora que nunca se deixou poupar em suas emoções. A marca de Dalva – lanhar-se na solidão, no desespero – tem seguidoras ilustres: Angela Maria e Maria Bethânia beberam dessa fonte. E, indiretamente, Elis Regina, confessa apaixonada de Angela Maria, que também imprimiu na voz a nudez dos sentimentos.
‘‘Dalva de Oliveira e Roberto Inglez e sua Orquestra’’. Último lançamento da Revivendo Músicas, de Curitiba, traz gravações dos anos 50 de Dalva de Oliveira e do maestro Roberto Inglez. Contatos com a Revivendo: telefone (41) 253-3035, fax: (41) 253-7444, www.revivendomusicas.com.br