Foi aberta ontem no Museu de Arte de São Paulo (Masp) - para o público abre hoje, às 9 horas - a maior mostra já montada no Brasil da obra do catalão Salvador Dalí (1904-1989). São 476 obras do artista, entre telas, esculturas, desenhos, gravuras e fotografias. A exposição custou mais de R$ 1 milhão e vem de quatro museus e cerca de dez coleções particulares do mundo todo.
A mostra Salvador Dalí é mais um lance do esforço recente do Masp e dos museus brasileiros para promover mostras espetaculares e de grande afluxo de público - seguindo os exemplos recentes das mostras de Rodin, Monet e Botero. Até 9 de agosto, quando termina a exposição, espera-se que mais de meio milhão de pessoas tenham visitado o Masp.
‘‘Dalí foi o primeiro artista globalizado do século, mas com o sangue quente dos espanhóis’’, disse o curador internacional da mostra, o fotógrafo, escritor e cineasta francês Robert Descharnes, amigo de Dalí por quatro décadas. Descharnes, que tirou o pintor do meio de um incêndio em seu castelo de Figueras em 1984, detém os direitos de edição e reprodução da obra de Dalí até 11 de maio de 2004, quando eles voltam ao domínio do Estado espanhol.
Entre as obras que se destacam na exposição estão 13 peças da Coleção Morse, do acervo do Museu de St. Petersburg (Flórida, Estados Unidos). A família americana Morse conheceu Dalí nos anos 40, quando o pintor fugia da 2ª Guerra, e manteve longa amizade com o artista, adquirindo sistematicamente obras dele. Dessa coleção, estarão na mostra ‘‘O Espectro de Vermeer Utilizado como Mesa’’ (1934) e ‘‘O Anjo de Port Lligat’’ (1959), entre outras.
O óleo ‘‘Madonna de Port Lligat’’ (1949), pertencente ao acervo do Marquette University Museum, de Milwaukee, Estados Unidos, é outro destaque. É uma das obras mais reproduzidas de Dalí ao redor do mundo seja em reproduções autorizadas ou não, como lembra Descharnes.
Hoje em dia, diz o fotógrafo, gravuras de Dalí que podem ser compradas por 50 ou 60 francos em Paris são vendidas em Honolulu, no Havaí, por US$ 15 mil por galeristas para turistas japoneses em lua-de-mel. Esse aspecto ‘‘viral’’ da obra do mais espalhafatoso artista do século é uma das questões com que Descharnes se defronta há mais de dez anos.
Segundo ele, Dalí divertia-se com isso - ainda mais porque, quando obras falsas eram leiloadas, o pintor sempre recebia a percentagem devida ao artista. Só o que o afligia, às vezes, era a qualidade dessas reproduções. ‘‘De qualquer modo, é impressionante a qualidade técnica das falsificações’’, observa Descharnes, que já chegou a ser convocado, pela polícia de Los Angeles, para avaliar uma série de 23 assinaturas diferentes de Dalí durante uma apreensão de obras falsificadas.
Descharnes tem uma relação bem próxima com uma das peças mais simbólicas da exposição: a escultura Rinoceronte, que pesa 3,5 toneladas, a maior peça da exposição. Dalí realizou-a nos anos 50 a partir de sua obsessão particular pelo quadro ‘‘A Rendeira’’, de Vermeer. Descharnes dirigiu (com Jean-Christophe Averty) um longa-metragem sobre essa escultura, chamado ‘‘A História Prodigiosa da Rendeira e do Rinoceronte’’, além de outros três filmes sobre o processo criativo do pintor catalão.
Descharnes refuta as críticas sobre a incompletude da exposição não está incluída na mostra a famosa série de relógios do artista, por exemplo. ‘‘Essa exposição foi montada tendo em vista os próprios preceitos de Dalí, que toda a sua vida tentou evitar a facilidade’’, conta Descharnes. Para ele, há uma imensa curiosidade dos mais jovens sobre o pintor, mas tudo o que sabem sobre ele é que tinha bigodes circulares. A mostra cumpre, então, uma função quase didática.
É por isso que estão na mostra o pano de fundo do cenário e 12 figurinos do balé ‘‘El Sombrero de Três Picos’’, criado em 1949 com música de Manuel de Falla e conceito artístico de Dalí. Entre as gravuras, desenhos e colagens, destacam-se ‘‘Piano Surrealista’’, pastel e guache feito em 1937 para um projeto de filme com os irmãos Marx.
Ainda assim, Descharnes lamenta não ver na exposição o lado ensaístico de Dalí, que ele considera muito importante em sua obra. Ele lembra que 80% dos textos do pintor foram produzidos em francês, como se ele quisesse afirmar sua multiculturalidade, o seu lado ‘‘artista do mundo’’.
Por que Dalí se tornou o mais proeminente dos surrealistas? Mais do que seu gosto pelo espetacular, pela polêmica ou pelo marketing obsessivo (André Breton chegou a apelidá-lo de avida dollars, dado seu apetite pelo dinheiro), a Descharnes parece que há alguma explicação mais profunda que nada tem a ver com talento.
‘‘Ele se movia mais rapidamente de um compartimento a outro, mudava de posições com mais velocidade’’, pondera o fotógrafo, que prefere ser chamado de amigo de Dalí, nunca de curador. ‘‘Tinha interesse em todas as descobertas da ciência, um interesse real, profundo, como se fosse um homem do Renascimento, mas com um tipo de curiosidade canibal’’, acentua.
Sobre a controvertida relação entre Dalí e o poeta espanhol Federico García Lorca, o fotógrafo tem pouca informação. O pintor e o poeta eram muito jovens na época de sua amizade, mas há quem insista numa tese de que teriam sido amantes, examinando a correspondência entre eles. ‘‘Eu creio que Dalí estava, nessa época, dividido entre duas pessoas de personalidades muito diferentes, Lorca e Bu¤uel, e a dureza e o rigor de Bu¤uel venceram’’, pondera.
Descharnes só se lembra de Dalí ter se referido uma vez ao amigo poeta. Foi quando o fotógrafo o inquiriu sobre a possibilidade de ilustrar um livro de Lorca e Dalí respondeu laconicamente: ‘‘Não, Lorca é demasiado folclórico’’.

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