O mundo é uma caixa de ressonância que vibra com as emoções, histórias, poesias, dramas, violência, guerras, amor. Artistas como o mais jovem regente de orquestra do Japão, Daisuke Soga, captam essas energias brutas e as transformam em arte.
''Acredito que a inspiração que tenho para reger ou compor vem das minhas experiências. O como me sinto agora é importante'', revela Soga - um colhedor de impressões sobre a vida. Talvez por manipular, combinar, reagir entre si esses elementos com apuro extremado, é impossível ao maestro eleger uma peça musical de preferência.
''Em todo o mundo temos músicas lindíssimas. Existem muitas obras de valor inestimável, o que torna difícil apontar apenas uma ou algumas'', afirma Soga, que ministra cursos de Prática de Orquestra Sinfônica e de Regência de Orquestra Sinfônica no Festival de Música de Londrina (FML). Sexta-feira e sábado, ele estará à frente do concerto de encerramento do evento com o espetáculo ''Carmina Burana''. No palco do Teatro Ouro Verde, às 20h30, músicos da Orquestra Sinfônica, solistas e coro do 30º FML estarão sob a inspiração do maestro japonês.
Ele é reconhecido pelo Internacional Kirill Kondrashin Competition for Young Conductors, uma das maiores premiações para jovens regentes, por sua habilidade em colocar grande dramaticidade e caráter nos diferentes estilos de música, clareza técnica, surpreendente maturidade e profissiolismo.
Aos 45 anos de idade e em sua quinta participação no festival londrinense, Soga volta ainda mais imerso na vida: a grande inspiração. No final de maio, o maestro confrontou-se justamente com ela ao sofrer um aneurisma cerebral.
Cinco dias de internação e ainda se recuperando do incidente, o mundo passou rapidamente pelo artista. Todas as emoções, dramas, alegrias e os amores que experimentou se transformaram em saudade - uma palavra que aprendeu no dicionário de português que leva sempre consigo.
''Saudade de quando comecei na música. Me lembrei de tudo na juventude e da paixão que tenho pela arte. Hoje, eu digo que tenho ainda mais alegria pela música'', avalia Soga, que começou estudando contrabaixo e regência aos 19 anos.
Esse olhar, que não se afasta nunca da existência, segura a batuta com firmeza e também generosidade ao falar sobre os seus alunos, colocando-os à frente para que tenham uma melhor visão da vida profissional. Por isso, na primeira parte do concerto de encerramento do festival, os discípulos assumem a regência, enquanto o mestre espera a vez, na segunda parte de ''Carmina Burana''.
Soga aproxima as diferenças de um grupo de alunos heterogêneo ao desejar um encontro verdadeiro com cada um. ''Ensinar tantas pessoas assim é como uma conversa entre amigos. Na primeira vez que nos vemos não nos conhecemos. Aos poucos vamos descobrindo um pouco sobre as suas famílias, os hobbies. Esse primeiro momento é muito difícil'', destaca.
Soga acompanha alguns alunos desde a primeira participação no FML, há cinco anos, o que lhe permite avaliar a própria evolução do festival. Como acontece na maioria dos eventos culturais, o maestro lamenta a falta de maior orçamento financeiro.
''Compreendo a situação política do Brasil, mas nós precisamos de mais orçamento especialmente para os alunos. Alguns deixaram de participar do festival porque não têm dinheiro. É preciso haver a distribuição de bolsas de estudos. Só assim, o nível deles será cada vez mais alto'', acrescenta.
Apesar de parecer óbvio dizer que a escala de quem deseja se tornar um grande músico deve começar pelos degraus do talento, da paixão, inspiração, seriedade e do constante estudo musical, a afirmação revela a humildade de quem já alcançou o topo. Ele acrescenta que é preciso estudar não só música, como literatura, arte em geral, gastronomia. Um cardápio delicioso, por exemplo, é capaz de despertar música. É o que chama de experiência de clarividência. ''É como apreciar um bom vinho, contemplar uma bela mulher'', acrescenta o maestro.
Partituras da vida que estão em composições de Soga, como a homenagem ao piloto Ayrton Senna, música que já executou em Londrina. Para o maestro, o brasileiro foi perfeito. Perfeição que a música alcança ao combinar sons e silêncio, vibrando todas as emoções, histórias, poesias, dramas, violência, guerras, amores do mundo e da vida.

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