Lá pelos anos 1950, durante a chamada idade dourada do melodrama hollywoodiano, a Warner Bros. apresentou o primeiro remake de um filme dos anos 1930, em cujo roteiro havia a marca da afiada sofisticação da intelectual americana Dorothy Parker: "Nasce uma Estrela". Esta versão, de 1954, foi dirigida pelo mestre George Cukor, um expert em perfis femininos. Com Judy Garland no papel da star em ascensão e James Mason como o astro em decadência, o resultado foi uma obra-prima desesperada, na qual o desejo de morte era tão imperioso quanto a tendência aniquiladora de Hollywood em relação aos mitos que ela mesma criava. Esta é a melhor versão daquela história original, também aqui incluída a atual em lançamento planetário assinada por Bradley Cooper, que faz sua estreia como realizador e preservando para si o papel principal, enquanto a multimídia Lady Gaga assume seu primeiro papel de importância no cinema.

Cena de 'Nasce uma Estrela':  clima melodramático rouba o frescor de modernidade da primeira hora do filme
Cena de 'Nasce uma Estrela': clima melodramático rouba o frescor de modernidade da primeira hora do filme | Foto: Divulgação



Os ventos do Oscar estarão soprando forte em outubro, e são ventos a favor do filme que vem lotando salas em muitos países. Faltando dois meses para que se encerrem as inscrições, a Academia deve estar um alvoroço. Em primeiro lugar, o melodrama, gênero por excelência na história do cinema made in USA. E as facilidades que o melodrama permite: atuações bem visíveis, extremadas, recheadas de dor e lágrimas. Que são as que mais apetecem acadêmicos e espectadores. E com a vantagem que leva o melô musical, ainda por cima com a debutante que todos conhecem.

Este "Nasce uma Estrela" tem uma proposta tão contundente quanto indestrutível: a história de um artista veterano(ídolo de country rock) que se apaixona por uma colega mais jovem, a ajuda a triunfar enquanto ele mesmo, afogado em álcool e amargando uma pesada herança freudiana, entra em queda livre no mundo do espetáculo. Esta refilmagem de Bradley Cooper, que seria dirigida em 2011 por Clint Eastwood, apresenta uma primeira parte irretocável, com sólidos números musicais e interpretações espontâneas e muito convincentes. É quando há momentos que parecem até improvisados pelos atores, com cenas muito soltas, naturais e encantadoras - especialmente na longa sequência em que se conhecem.

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Mas estranhamente surge um ponto de inflexão dividindo o relato, e o filme vai perdendo sua modernidade e o frescor natural da primeira hora, naturalmente substituído pelo adensamento do melodrama clássico requerido, é verdade, mas que Cooper parece ter dificuldades em manejar. A partir da entrada em cena do empresário que pretende contratar a jovem revelação Ally (Gaga) e levar sua carreira em outra direção musical, afastando-a do quase sempre alcoolizado Jackson Maine (Cooper),os mecanismos mais tradicionais do melodrama começam a se fazer sentir. Este não exatamente "o" problema, mas a primeira metade era tão naturalista e com ótima dosagem estética indie, há um forte choque de estilo. E tudo que antes era natural e muito convincente passa a ter rédeas curtas. Vale dizer, mais estruturação. Aquilo que fluía tão leve e solto e tão bem, recebe uma trava, um freio. E até as lágrimas, que no início surgiram tão ligeiras e felizes, se tornam mais mecânicas e burocráticas.

Então: o problema real da segunda hora não é necessariamente de música nem de atuações, mas de roteiro e da (in) capacidade de Cooper como cineasta para transitar nessas zonas onde as emoções são mais grandiloquentes e mais classicamente hollywoodianas. Stefani Joanne Angelina Germanotta (ok, Lady Gaga...) não poupa carisma, e só depende dela, dar prosseguimento a uma bela carreira paralela à sua de cantora pop. Muito esperta, a moça que fez dos disfarces marca registrada que a distingue das demais ao redor, constrói no filme uma nova identidade artística, mostrando que pode sim, meter o nasal italiano onde ela achar que deve.

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