Da TV para o cinema
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sábado, 11 de abril de 1998
Júlio Gama Agência Estado 
ReproduçãoAtravés da Globo Filmes, Guel Arraes leva para o cinema um de seus melhores projetosA Comédia da Vida Privada, uma das séries mais elogiadas da TV brasileira, vai chegar aos cinemas em 98. A direção será de Guel Arraes, que este ano é um dos dez indicados para o Prêmio Multicultural Estadão e criou e dirigiu a série exibida durante três anos pela Globo. Comédia será produzido pela Globo Filmes, núcleo de cinema criado pela emissora há três meses. O roteiro, assinado por Guel Arraes, Jorge Furtado, João Falcão e Luis Fernando Verissimo (mesma equipe que escreveu os 24 episódios para a TV), foi entregue no fim do ano ao diretor-geral da Globo Filmes, Daniel Filho.
Comédia é mais um dos projetos da Globo Filmes para este ano, além de A Partilha, baseado no espetáculo de Miguel Falabella, e de um longa-metragem protagonizado pela apresentadora Angélica. Orfeu, de Cacá Diegues, também deve ser co-produzido pela Globo Filmes.
A Comédia da Vida Privada, a série, estreou em 1994, adaptada das crônicas de Verissimo. Guel Arraes, Furtado e Falcão, com a ajuda de Verissimo, costuravam as crônicas selecionadas por temas, mas os textos originais do escritor renderam no máximo cinco programas e os adaptadores passaram a ter cada vez mais espaço nos roteiros da série.
O primeiro programa era todo do Verissimo, depois passou a 50%, 40% e no fim não havia mais do que 20% escrito por ele, conta Guel Arraes. A transição do texto do Verissimo para o nosso era como se saíssemos do asfalto para a estrada de terra, compara, bem-humorado. Nos cinco últimos programas, exibidos em 1997, os adaptadores assinaram os textos quase integralmente. Acho que produzimos excelentes programas, mas perdemos a mão da série, avalia o diretor.
Comédia marca a estréia de Guel Arraes como diretor de longa-metragem, mas não é o que se pode chamar de o projeto dos seus sonhos. A idéia de levar a série da TV para o cinema partiu do diretor da Globo Filmes, Daniel Filho. É, portanto, um projeto de produtor mais do que de diretor. O filme era um caminho natural, diz o diretor. O próximo passo no cinema não está definido, mas será um projeto autoral.
Isso vale também para a TV. Depois de tantos anos trabalhando em parceria com João Falcão e Jorge Furtado, Arraes não crê que continuem juntos na TV. Sempre funcionei muito bem trabalhando com pessoas tão ou mais talentosas do que eu, diz. Agora sinto uma fragmentação do grupo.
O cinema chega à vida de Arraes com pelo menos 18 anos de atraso. Tornar-se cineasta era o seu plano em 1980, ao voltar de uma espécie de exílio de 11 anos entre a Argélia e a França. Em 1969, com 15 anos, o adolescente Miguel Arraes de Alencar Filho, quarto dos dez filhos do governador de Pernambuco, foi para a Argélia encontrar-se com o pai, líder da esquerda que fugiu do País logo após o golpe militar de 64.
Concluiu o curso científico numa escola francesa nos três anos em que viveu na África e se mudou para Paris, onde moraria por sete anos. Na capital francesa prestou vestibular para antropologia e matemática, mas abandonou os dois cursos e optou pelo cinema.
Arraes chegou a ser assistente de Jean-Luc Godard numa produção do mestre do cinema francês rodada em Moçambique. O projeto consistia em registrar a formação da auto-imagem de um povo argelino recém-libertado. Ele já disse que não foi trabalhar com Godard por causa de seus belos olhos, mas porque falava português, o idioma local. Acompanhou Godard e a mulher em quatro viagens ao país. Godard fazia as câmeras, eu carregava as caixas, resume, tímido.
Nesse tempo, realizou documentários em 16 milímetros e dirigiu o média-metragem Barbés Palace. O diretor chegou a fazer parte do Comitê do Filme Etnográfico, ligado à Cinemateca francesa. Em 1979, com a anistia política, retornou ao Brasil com a família.
Chegou cheio de idéias para o cinema, mas encontrou um mercado às moscas e aceitou convite da Globo para ser assistente de direção da novela O Jogo da Vida, ao lado de Jorge Fernando. Com ele, Guel Arraes dirigiu algumas das novelas mais engraçadas da Globo, entre elas, Guerra dos Sexos e Vereda Tropical.
Depois das novelas, o diretor partiu para o que chama de dramaturgia de autor - os programas com a sua marca - e fez a série Armação Ilimitada, um dos maiores sucessos dos anos 80. Depois vieram os humorísticos TV Pirata, Programa Legal e Doris Para Maiores. Em 1993, Arraes dirigiu os casos especiais da Globo, adaptações para a TV de autores brasileiros: Machado de Assis, Mário de Andrade, Clarice Lispector, etc. e chegou ao A Comédia da Vida Privada.


