Sem surpresas e desfilando outra habitual coleção de ultrajes, uma das mais populares e consequentemente rentáveis franquias recentes de Hollywood está anunciando a aposentadoria. A série infanto-teen-regressiva, segundo demonstram o poster oficial à porta dos cinemas e os indicadores detectados no decorrer da trama, chegou a seu clímax e está sendo encerrada com este ''American Pie: O Casamento'', que estréia hoje nas salas brasileiras (confira a programação de cinema na página 2). O que não significa que é agora possível baixar a guarda, já que nada impede ao plantão do departamento de roteiros implausíveis providenciar para daqui a pouco algumas prequelas à moda ''Star Wars - Ameaça Fantasma e O Ataque dos Clones''. Jason Biggs voltaria aos anos 1960 interpretando o pai dele (hoje vivido por Eugene Levy), então um jovem conservador. Alguma coisa como ''A Primeira Torta - como foi que a coloquei no forno''.
Concebida sob inspiração não confessada mas óbvia do cinema grosso e fluídico (não de fluidez, mas de fluidos corporais mesmo) dos irmãos Farrely, ''American Pie'' começou sua carreira com 101 milhões de dólares em 1999, localizando seus personagens principais no curso secundário. Dois anos depois e U$ 145 milhões a mais, o mesmo pessoal chegava à universidade aprontando as mesmas. Agora, cumprido outro par de anos e até final de outubro contabilizando outros U$ 105 milhões, a farsa avançou até o altar, sempre impulsionada por prodigiosas injeções de sexo e escatologia e amenizadas por pitadas de romance. De resto, a sensação que prevaleceu diante dos anteriores não abriu a guarda aqui: é preciso admitir que alguma coisa até poderia ser engraçada, não fosse nauseante. Mas convenhamos: risos e vômitos não combinam.
Jim (Jason Biggs) e Michele (Alyson Hannigan) vão se casar. Amigos e familiares de ambos se preparam para ajudar o casal a cruzar o simbólico limite da idade adulta. A garota quer que o casamento saia perfeito. Não vai ser fácil, claro, mas isto será possível se todos se portarem bem, sem brigas entre si. O que parece bem pouco provável. A irmã de Michele, a avassaladora Cadence (January Jones, já na mira da antropofágica estrutura hollywoodiana), está chegando para ser dama de honra. Os amigos machistas Stifler (Sean William Scott, ator cômico a ser melhor aproveitado desde que com o roteiro correto nas mãos) e Fynch (Eddie Kaye Thomas) preparam estratégias para ver quem fica com a garota. É uma guerra valendo absolutamente tudo. Enquanto isso, Jim quer impressionar os severos pais de Michelle, pedindo a Stifler que se comporte. Este muda de atitude: da grossura habitual passa à inusitada delicadeza. Fica com o papel de bonzinho, enquanto Finch não tem opção a não ser bancar o mau caráter.
''American Pie: The Wedding'' se esforça para dizer ao espectador que, apesar de quiprocós e vulgaridades por atacado, devemos celebrar a amizade, o amor romântico e o casamento. Mas fica muito difícil metabolizar este material mais light quando o roteiro carrega tão explicitamente no mau gosto. Dois momentos de humor ofensivo, ambos envolvendo o personagem Stifler: no primeiro, ele encontra um cocô de cachorro onde está o anel de casamento que estava perdido. Mas por força das circunstâncias, ele diz que se trata de uma trufa de chocolate e come a substância, inclusive descrevendo a especiaria - fatalmente estamos diante de um novo significado para a palavra gag. Depois, no dia do casamento, na escuridão de um armário e acreditando que está com a bela Cadence, o sexista reincidente Stifler faz amor com a octogenária avó judia do noivo, que parte em estado de graça e perdoa o neto por estar se casando com uma não judia. É torcer muito para que seja realmente o fim das tortas e bolos.

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