Da raiz à flor
A tulipa negra, conhecida como flor rara e resistente, dá nome à exposição de fotos de mulheres afro-brasileiras em Londrina
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de março de 2019
A tulipa negra, conhecida como flor rara e resistente, dá nome à exposição de fotos de mulheres afro-brasileiras em Londrina
Ana Elisa Frings - Estagiária* 
Próxima de se aposentar da carreira de professora da UEL, Lucinea Rezende tem mais tempo para se dedicar à fotografia como uma ação de maior alcance na sociedade. O que surgiu como um interesse paralelo há 11 anos, agora ganha espaço como forma de contar histórias pouco divulgadas comumente. “A foto dá voz, tem muitas possibilidades de utilizá-la como comunicação e quero seguir com esse propósito para outros projetos”, conta.

A exposição que estreia nesta quinta-feira (28), na capela ecumênica da UEL, traz para o mês da mulher e do combate ao preconceito racial, um projeto que retrata mulheres negras de londrina com o intuito de dar visibilidade e poder a estas londrinenses. Para Rezende, mostrar essas mulheres no estilo que elas próprias escolheram é uma forma de questionar o que é divulgado na mídia, ao omitir alguns grupos. “Eu, assim como tantas mulheres, sofri preconceitos na vida, na carreira profissional e achei que com mulheres negras poderia ser pior, com a questão do racismo. As fotos são um meio de eu ajudar a diminuir isso.”
O primeiro passo para produzir o “Tulipas Negras - mulheres londrinenses" foi a aproximação com Sandra Aguilera, a coordenadora dos coletivos Black Divas e Marcha do Orgulho Crespo, dois grupos da cidade que trabalham pela visibilidade e valorização da identidade negra na sociedade. Ao ouvir o propósito pensado para o projeto, a coordenadora concordou em levar a ideia das fotos até as participantes dos grupos, já que a intenção não se distanciava da missão delas. “Como trabalhamos para ter notoriedade e mostrar as histórias das mulheres negras em Londrina, as fotos se encaixaram muito bem no lema ‘desconstruir preconceitos’ e também para valorizar a história de cada uma delas.”
A maquiagem, roupas e acessórios usados nas fotos vieram de um processo voluntário entre as próprias fotografadas e não houve nenhum patrocínio externo para os custos. Como tema que unificou a estética das fotos, Lucinea definiu que seria uma mulher negra, uma flor e uma história. “Pensei em criar um eixo para esse projeto a partir desses três elementos. Cada uma delas usou uma flor de sua escolha e as histórias de vida delas virou um texto. Elas se ajudaram uma à outra com maquiagem e cabelo. Esse processo de pré-produção ajudou a criar um clima mais confortável para as fotos”, relata.
Participaram do projeto 21 mulheres. Como referência para que elas escolhessem o cabelo, a roupa e acessório, Rezende mostrou a elas algumas fotos para inspiração. E na pós-produção, a fotógrafa enfatiza que não houve edição em manchas, nem marcas da pele. “Não foi feita nenhuma alteração que retirasse rugas, marcas de expressão, etc. Porque são parte da história de cada uma delas, não faria sentido apagar”, explica.
PASSAR PELA EXPERIÊNCIA
Adilza Carvalho, professora e cantora, foi uma das fotografadas. Sobre a experiência de ser retratada no mês da mulher, ela sentiu um reconhecimento que faltava à história da cidade para com essas mulheres. “É uma valorização da história das mulheres negras londrinenses também. Nunca aparecem indígenas ou negras, sempre são lembradas as europeias e japonesas como fundadoras da cidade, mas nós também temos um lugar na história”.
Sem nunca ter participado de uma exposição fotográfica com esse propósito, Adilza avalia que a iniciativa foi muito importante. “São mulheres das mais variadas profissões e trajetórias, e agora vai ficar registrado em imagens e textos. É importante para ajudar a derrubar padrões impostos. Cada mulher tem seu jeito, não deveria haver tanta preocupação em preencher todas o mesmo modelo.”
A experiência para ela foi como um encontro entre amigas e sentiu-se confortável para fazer as fotografias. “Eu me senti acolhida e tive a autoestima elevada. Estando em grupo é possível reforçar a noção de pertencimento, da identidade. Traz confiança”, revela.
Para a fotógrafa e idealizadora do projeto, Lucinea Rezende, o principal significado é mostrar o que é ser mulher negra. “Lidar com preconceitos e descobrir o próprio valor. Dá para perceber que após esse trabalho com a autoestima, elas vão se dando conta que podem tomar mais iniciativas, se tornam mais ousadas e encontram alegria de viver.”

DIA ESTADUAL
No último dia 21 foi sancionada a lei estadual que estabelece este como o Dia Estadual de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, com campanhas e ações educativas para a data. A Onu (Organização das Nações Unidas) havia instituído o mesmo dia como data internacional da Luta pela Eliminação do Preconceito Racial após o massacre em Joanesburgo, África do Sul, em 21 de março de 1960. Morreram 69 pessoas e 180 ficaram feridas durante um protesto contra as leis do apartheid, o regime que obrigava a separação na convivência entre brancos e negros.
Serviço:
Exposição: “Tulipas Negras - mulheres londrinenses"
Local: Capela Ecumênica da UEL
Abertura: quinta-feira (28), às 19h30
Horários: de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 12h e das 13h30 às 17h30
A exposição permanece aberta durante 30 dias
A capela está localizada no Calçadão do campus universitário, entre o CCH (Centro de Ciências Humanas) e o Cesa (Centro de Ciências Sociais Aplicadas)
* Supervisão: Célia Musilli
Editora da Folha 2


