São Paulo, 30 (AE) - Era uma vez um homem de barbas brancas e enormes charutos chamado Sigmund, que, um dia, mandou seus profetas exibir ao mundo o lado negro no coração dos homens
facilmente comunicado, diziam, pela sabedoria imortal dos contos de fadas. E, assim, todos os que liam essas histórias descobriam, maravilhados, que deveriam viver felizes para sempre
odiando suas mamães malvadas e temendo seus papais pecaminosamente carinhosos.
Cansada das leituras psicanalícas das lendas, que faziam complexos de Édipo dar mais sustos em crianças do que ogros, a pesquisadora britânica Marina Warner escreveu "Da Fera à Loira" (Companhia das Letras, 536 págs., R$ 39,00), uma deliciosa e erudita análise sobre a circunstância histórica do surgimento dos contos de fadas e as motivações reais de seus narradores. Longe de arquétipos, Cinderela, Rapunzel e outras amiguinhas do mundo da fantasia ganham novas luzes para caminhar melhor pela floresta escura.
"Os contos são sedimentos formadores de nossa imaginação, mas no mundo pós-freudiano isso ganhou um peso excessivo, pois eles foram ratificados como verdades eternas e de validade universal, depósito de nossa sabedoria", avisa Marina. "Aceito a riqueza psicológica das lendas, mas sem restringi-las a receitas psiquiátricas", pondera. "Quero mostrar que, se há elementos que efetivamente entrecruzam gerações e culturas diferentes, há outros que são enraizados em experiências humanas, associados a costumes sociais e momentos históricos, variando assim o seu significado na medida que o tempo passa". Mãe e ansiedade - O exemplo clássico para a escritora é a recorrência do tema da mãe morta nas histórias, como em Cinderela. "Relaciona-se com a ansiedade das crianças no desaparecimento das mães, que foi interpretado pela psicanálise como uma forma psíquica de lidar com os sentimentos antagônicos que sentimos por elas: matar a mãe num texto, para os analistas, ajudava-nos a lidar com esse problema na realidade", analisa. Estávamos condenados, então, ao horror materno eterno na literatura.
"Por isso, queria descobrir quem eram os narradores dessas lendas e descobri que, em boa parte, eram mulheres que usavam as histórias para avisar as crianças de perigos bem reais do cotidiano, bem como assustá-las para controlá-las ou dar a sua versão sobre os conflitos familiares e a tensão social em que viviam", diz. Assim, por exemplo, as muitas madrastas perversas e sogras tiranas. "Longe de tipificar a mulher como um ser mal, esses contos mostram a vulnerabilidade, a insegurança dos interesses da narradora num dado contexto social: noras temerosas das mães de seus maridos ou mulheres mais velhas que perderam o controle da casa com a chegada da mais nova, a nova dona", fala. Ou, então, uma forma confortável de controlar os pequenos.
"A idéia de madrastas más dá a lição do medo às crianças e transfere os aspectos negativos do comando para outra
uma rival que deve levar toda a culpa", continua. Da mesma forma, pode-se ter outra visão da lenda do Barba-Azul e suas sete mulheres. "Nas versões iniciais, a última delas encontra-se com a anterior, já morta, que avisa a ela: Não engravide, pois ele a matará; esse conto relaciona-se muito com o medo da taxa elevada de mortalidade infantil, sobre o medo dos perigos que esperava as mulheres no casamento", avalia.
Em "Pele de Asno", a lição é ainda mais prática. "A história sobre a filha que usa a pele de asno para fugir ao desejo do pai de se casar com ela alerta para os perigos do incesto, mas, acima de tudo, é um aviso para as mulheres sobre os limites do amor filial que, se rompidos, libertam-nas da obediência incondicional ao pai, em geral apresentado como sempre certo em outras histórias". Caladas no mundo real, as mulheres podiam expressar, sem medos, as realidades mais negras do casamento e da família, criticando seus antagonistas, fossem esses rivais do mesmo sexo ou homens, a quem também podiam ensinar, no tempo em que se ainda podia torcer o pepino, como elas efetivamente eram, defendendo sua identidade e expressando suas obsessões e preocupações.
Assim, quem conta um conto vai direto ao ponto. "Dizer foram felizes para sempre não é uma expressão vazia, mas um encanto contra o desespero, porque os contos de fadas não são apenas fantasias escapistas, mas reflexos de problemas efetivos, desabafos para o bem ou para o mal de mulheres assustadas e inseguras presas em uma estrutura familiar", pondera. Não sem razão, a passagem da lenda oral para a escrita (mas Marina avisa que não acredita em fontes puras dos contos de fadas, nascidos de misturas complexas de tradições orais e escritas, vindas de várias regiões do mundo), feita em geral por homens, cauterizou com fogo velhas feridas femininas.
"Quando os irmãos Grimm convidaram uma velha para lhes contar a sua versão germânica de Cinderela, ela se recusou; eles
então, deram dinheiro a uma garota para que pedisse o mesmo à senhora, que, de bom grado, narrou a história - uma versão cruel em que Cinderela vinga-se das irmãs más - e a menina, depois, repetiu para os dois", revela. "Entre os vários motivos da negativa inicial da velha estava um segredo feminino em que ela acreditava, o conselho do "vingue-se das suas inimigas, que a senhora não queria compartilhar com homens: os contos têm esse poder de refazer o mundo à imagem do desejo".
Não devemos também esquecer que a fantasia para o presente - com florestas, lobos e a necessidade real de abandonar crianças para a sobrevivência da família - foi, um dia
a realidade do passado. Basta também notar como as releituras dos velhos contos trazem novos conteúdos, como no caso de "A Bela e a Fera", inicialmente caracterizando o medo e a esperança das filhas, que se viam entregues pelos pais aos maridos, que esses monstros pudessem se transformar em princípes seguros - idéia repetida na história do princípe transmutado em sapo", fala.
"Já no desenho da Disney - que, embaraçada, confesso ter me agradado -, como essa realidade do casamento arranjado já foi superada, o novo tema é a boa convivência com a nossa fera interior, pois a Bela acaba por se apaixonar pelas qualidades selvagens da Besta, a sua espontaneidade e carnalidade", explica. "Essas mudanças são boas, mas há casos em que a releitura traz novas facetas materialistas ao original: "Pretty Woman", por exemplo, é sobre uma Cinderela que se realiza ao casar com um ricaço, enquanto a história antiga insiste sobre a pureza do amor da moça, que prefere a sinceridade dos servos ao luxo falso dos nobres", compara.
"Outro perigo é usar os contos de fadas para, bem ao espírito do nosso tempo, exaltar em excesso a força do individualismo que, em doses certas, era a grande virtude das velhas lendas, confortando a criança ao mostrar a possibilidade de se superar obstáculos, por mais medonhos que parecessem, que nada está perdido na vida e que, por fim, com a sabedoria ganha, se pode vencer", diz. Isso, aliás, diferencia os contos de fadas dos mitos, lembra Marina, centrados no destino inexorável contra o qual nada se pode fazer. "É o que mantém os contos vivos no século 20, paradoxalmente a era do progresso científico em que dominamos as forças da natureza e esvaziamos os antigos terrores", acredita.
"Mas, por conhecer esse controle e entender que ele está nas mãos de poucos, ficamos ainda mais temerosa de seu poder: as histórias, com suas palavras mágicas capazes de reordenar o universo em caos, confortam-nos desse terror, trazendo o desejo de voltar a um mundo mítico em que se podia vencer apenas ao pronunciar o encanto correto, a sensação boa da harmonia possível". Não sem razão, de games a filmes, estamos novamente cercados por fadas, ogres e duendes.
E, pais, uma resposta à indagação eterna: por que as crianças nunca se cansam de ouvir, mais e sempre, as velhas histórias? "Como com o aprendizado de palavras, eles gostam de reconhecer estruturas - situação ruim para o protagonista que, depois, melhorará no final -, adoram a familiaridade, algo que possam dominar confortavelmente e com segurança, seja vendo o vídeo da historinha pela centésima vez, seja lendo e ouvindo histórias com aparência externa diversa, mas o mesmo conteúdo", explica. "Há milhares de histórias que falam de figuras monstruosas que se revelam bons por fim, exatamente como em "A Bela e a Fera" original, para dar um exemplo apenas de histórias reaproveitadas". Quem quiser que conte outra.

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