Da Coréia, o amor difícil atrás das grades
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de setembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Kim-Ki-duk, diretor do belo ''Casa Vazia'', que em 2005 inaugurou a sala alternativa da cidade, mais uma vez não abre mão da temática que predomina em sua filmografia, principalmente com o filme citado e em ''Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera'' (2003), ambos disponíveis em DVD.
Após a fábula sobre a atração física proposta por Kim-Ki-duk em ''Time'' (2006), inédito em Londrina, o diretor coreano realizou este filme, interessante relato no qual confluem solidão, infidelidade, hipocrisia, ciúmes e, naturalmente, a esperança e a entrega ao próximo, como quer o título original em coreano do próprio filme - a distribuidora brasileira desprezou a tradução literal, ''Alento'', e quase desfigura o significado do argumento com este inadequado ''Fôlego'', estreando hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2).
O casamento de Yeon (Zi) não atravessa lá seus melhores momentos. O marido mantém um caso do qual ela é consciente, e a filha é o único nexo que mantém o casal unido. A fictícia relação conjugal vivida por Yeon será determinante para concentrar todas as sua forças numa pessoa que necessita de ajuda: Jin (Chang Chen), preso condenado à morte e já várias tentativas de suicídio em seu histórico.
A partir da sensível escritura de roteiro centrada num triângulo de personagens, Kim-Ki duk desenvolve sua trama apoiando-se de maneira progressiva nas estações do ano para cada visita que a mulher faz ao réu. Esta manobra atua sobre o estado de ânimo dos protagonistas e trabalha simbolismos já inerentes ao estilo do realizador asiático, como por exemplo a atitude decisiva quanto à mancha em uma camisa recém-lavada.
Também há espaço para ridicularizar os falsos argumentos do marido para justificar o injustificável (''engano você, mas pelo menos trabalho'') ou diante da relação da mulher com o preso (''o que você quer, destruir minha auto-estima?''). Os propósitos suicidas do condenado, combinados com o amor explosivo de Yeon, fazem com que uma das sequências mais intensas do filme lembrem alguns momentos do passional e extremo romance narrado no clássico japonês ''O Império dos Sentidos'', de Nagisa Oshima, de 1976.
De alto nível a interpretação do elenco principal, com destaque para o mudo Jin, o presidiário condenado à pena capital. E para Yeon, a esposa enganada que, mediante o sacrifício realizado, persegue um duplo objetivo: ajudar a um desesperado e dar e receber o amor não correspondido pelo marido.


