Da China, ternura e lirismo
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sexta-feira, 05 de janeiro de 2001
De Londrina Especial para a Folha2 
A partir de Sorgo Vermelho, seu longa de estréia, o diretor Zhang Yimou refletiu na tela uma problemática inserida nos costumes ancestrais da China continental e em personagens desolados, sempre transitando entre um vasto interior arcaico, ritual, e as grandes metrópoles ocidentalizadas. Sem dúvida esta visão interessou aos públicos mais diversos, e consolidou-se numa filmografia que rompeu as muralhas e explodiu no Ocidente como obra universal de raro encanto. Ju Dou, Lanternas Vermelhas e A História de Qiu Ju levaram o nome de Yimou aos mais seletivos festivais do mundo.
Conmo consequência de seus muitos triunfos em Cannes, Veneza e Berlim, o diretor foi convocado por uma major americana para que, sem abandonar sua linha tradicional, realizasse um filme com argumento fiel à sensibilidade oriental mas na mesma medida aberta a uma ampla aceitação pelo grande público de qualquer nacionalidade. Segundo o próprio Zhang Yimou, ele rodou O Caminho Para Casa (em exibição somente em Londrina ) como uma reação contra as tendências atuais do cinema chinês, distante totalmente da lógica do mercado. Ele queria que sua trama fosse simples, imediata e totalmente dentro da realidade.
Embora pautado em parte pelos produtores, O Caminho para Casa nasceu fiel ao estilo e às idéias do cineasta. A história gira em torno de Luo, um homem da cidade que volta ao povoado natal localizado na região norte da China para assitir ao funeral do pai. Já quase sem os traços culturais de origem, Luo mergulha em recordações dos tempos em que seus pais eram noivos. Neste meio tempo, a mãe insiste para que sejam respeitadas as tradições funerárias, apesar da modernização dos costumes.
O homem recorda com clareza as histórias contadas pelo pai, que chegou ao povoado como o novo professor e logo se apaixonou pela mais bela jovem do lugar. Os dois se casam e nunca mais se separaram. Enquanto se lembra de tudo, Luo se convence de que a vontade da mãe deve ser respeitada, e contrata um grupo de homens para que, a pé, carreguem o caixão do pai do hospital até o local onde será enterrado. O caminho para casa é longo e arduo. A neve cobre tudo. Os antigos alunos do velho mestre recusam o dinheiro prometido para carregarem o caixão. Antes de deixar o povoado, Luo cumpre um velho desejo do pai.
Como nos filmes anteriores, aqui novamente Yimou aposta na ternura e no lirismo. O Caminho para Casa está ainda mais próximo da tradição chinesa da narrativa poética embora sem deixar de lado alguns aspectos autobiográficos, já evidenciados em Nenhum a Menos . Possivelmente o Zhang Yimou de O Caminho Para Casa não seja inteiramente aceito como o realizador que deslumbrou a todos pela temática e pela aguda observação do microcosmos de tradições, de religião e de exotismo. Nem por isso aqui ele deixa de ter o estilo singular que o distinguiu quando olhou seus personagens sempre com muita paixão.
O elenco, integrado quase que na totalidade por atores saídos do próprio povoado onde transcorre a ação, oferece uma enorme sensibilidade e sustentam com dignidade o propósito maior de Yimou: comover sem estridências. Um filme com o agridoce sabor do cotidiano. (C.E.L.J.)


