Neste pedaço perdido do sertão, repleto de histórias e mistérios entre a Serra da Muriçoca e o ermo Morro do Saca Trapo, surgem pequenas habitações de tijolos de barro cozido e teto de palha de piaçava e buriti. Estradas empoeiradas, árvores do diabo, solo seco e infértil, o forte calor do sol e a fumaça das queimadas fazem parte da rotina do sertanejo. A baixíssima densidade demográfica (0,8 hab/km2) comprova o quanto é difícil a vida nessa região. Para sobreviver o nativo tem roças de mandioca e milho. Às vezes, cria galinhas e porcos. Até pouco tempo atrás a caça era muito comum. Agora está proibida até para a sobrevivência.
E com certa dose de razão. Houve uma prolongada época de matança quando caçadores profissionais dizimaram milhares de emas para vender suas penas. Onças, antas, pacas, veados e outros animais também foram mortos em grande escala.
Com a chegada do ecoturismo e o maior rigor da fiscalização, alguma coisa está mudando. Os moradores já se interessam em procurar opções de trabalho como guia ou vendedor de artesanato. É o caso de Edvar Batista Pereira, nativo da região, que caçava e pescava para sobreviver. ''A carne de um veado era alimento para oito dias'', conta o sertanejo. Agora ele não caça mais: conduz grupos de ecoturismo pelas trilhas do cerrado e mostra as pegadas dos animais que conhece tão bem. Também gosta de contar causos. Um deles é o da feroz onça de lombo preto, um exemplar raro e temido, que ele matou a golpes de facão por estar ameaçando o gado.
O turismo incrementa também a venda do artesanato local. Dona Nelí Mamélio Nupes, moradora de Mateiros, como a maioria dos artesãos, trabalha com o capim dourado. Faz travessas, porta-jóias, bolsas e chapéus. ''Aprendi sozinha. Colho os ramos do capim dourado e tiro as pontinhas brancas'', explica a mulher nativa, que leva dois dias para fazer uma bolsa. Os preços variam de acordo com a peça, mas a partir de R$ 5 pode-se comprar excelentes souvenires. Esses produtos chegam a São Paulo e ao Rio de Janeiro valendo dez vezes mais.

mockup