Da arte e da revolução
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de abril de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha2 
quero a vitória do time da várzea/ valente, covarde/ a derrota do campeão/ cinco a zero em seu próprio chão/ circo dentro do pão.
(Paulo Leminski)
Antônio Nóbrega, em um de seus espetáculos, no Espaço Brincante, na Vila Madalena, em São Paulo, na pele de um personagem matuto, dizia que o nordestino encontrou o gaúcho e este, para mostrar que era macho e intimidar o outro, mostrou-lhe o facão. O nordestino tirou sua pequena pexêra do bolso e disse que ela matava do mesmo jeito, só que precisava furar várias vezes a vítima. Que tamanho, no caso, não era documento.
Enxergamos-nos pequenos, muitas vezes, e aceitamos a imposição de uma realidade à qual não concordamos, mas nos sentimos incapazes de lutar para mudá-la. Ou concordamos com ela, porque, de alguma forma, nos aproveitamos da situação e preferimos isso a correr o risco da mudança.
Semana passada, um trabalho exposto no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, foi retirado porque uma sociedade tradicionalista e dogmática viu o demônio pintado de vida em dois terços que se cruzavam, em forma de pênis, ameaçando a moral da família brasileira. Seu título: Desenhando com terços, da artista carioca, falecida ano passado, Márcia X.
Semana passada, também, no encontro Conferência das Américas, realizado em Curitiba, o presidente venezuelano Hugo Chávez disse, em uma das passagens de seu longo discurso, que Jesus não era aquele com cara de bobo resignado que o capitalismo vende em supermercados. Mas que, se vivo, estaria ao lado de Stélide e o MST, na luta pela Reforma Agrária, no Brasil. Em portunhol, é claro! E na televisão, ao vivo, pregando o socialismo, a luta contra o imperialismo dos Estados Unidos e a união das nações latino-americanas. Um Davi diante do Golias.
Voltemos, para não nos perder no caminho. É preciso entender que aceitar as pequenas mudanças e realizá-las, também, é estar em harmonia com a capacidade que cada um tem em se movimentar em seu espaço de manobra, dentro de certo contexto. O que nada tem a ver com pobreza de espírito. Um pequeno ato pode significar muito mais do que imaginamos.
Um desses atos diz respeito à arte. Ainda mais quando a censura quer impor as regras do jogo. Sem forma revolucionária não há arte revolucionária, já gritava, a plenos pulmões, o poeta Maiacóvski, durante a revolução Russa, apontando um caminho a seguir.
A arte não pode deixar de refletir o momento em que vivemos. Principalmente porque precisa mostrar que ser pequeno é diferente de ser covarde e desorganizado. E que no país do carnaval, da mulata e do samba a gente também é capaz de defender, com seriedade, nossos direitos, ainda que furando com peixeiras o inimigo, que se pensa tão forte, a ponto de nos intimidar.
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