Cuzco faz a Festa do Sol
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terça-feira, 08 de junho de 2004
Fábio Vendrame<br> Agência Estado 
Faz parte do calendário turístico mundial: a tradicional Festa do Sol (ou Inti Raymi), maior celebração da cultura inca, terá lugar em Cuzco, Peru, no próximo dia 24. É um dia todo dedicado ao deus supremo da criação para os povos andinos. Acompanhada de perto por milhares de turistas, a encenação toma as ruas da antiga capital do império inca. O ápice se dá em meio às ruínas de Sacsayhuamán, uma grande fortaleza que servia para guarnecer Cuzco. Ali é montado o palco principal do evento.
Já foram vendidas mais de 60% das entradas para o Inti Raymi, incluindo o que os organizadores chamam de ''lugares preferenciais''. Espera-se audiência de 3 mil visitantes para o espetáculo neste ano. ''Será a maior afluência de turistas dos últimos anos'', declarou o presidente da Empresa Municipal de Festejos de Cuzco (Emufec), José Antonio MuÀiz, para os meios de imprensa locais.
A Emufec anunciou Alfredo Inca Roca como o protagonista do Inti Raymi. Descendente direto dos incas, Roca é querido do público local por interpretar o papel de imperador com ímpeto e vigor. Com mais de 500 artistas envolvidos, o grupo folclórico Riqchary Wayna responderá pela encenação da Festa do Sol.
Quem já foi, recomenda. ''A festa mexe com tudo que diz respeito à cultura inca'', diz o representante do portal EcoViagem (www.ecoviagem.com.br), Marcelo Maestrelli, de 34 anos. ''Dá gosto ver os nativos encenando com brilho nos olhos'', continua. ''É divertido, mas é preciso estar preparado para dividir todos os momentos com muitas pessoas. Tudo fica completamente lotado.''
Muita gente, que não consegue ingresso, acaba subindo na parte mais alta do sítio arqueológico de Sacsayhuamán para acompanhar o ritual. Isso resulta em duras críticas por parte da imprensa e de entidades locais. Por conta disso, alguns rebatizaram o evento que será transmitido em TV aberta para todo o país de ''gringo raymi''.
Solenidade de caráter religioso e social, o Inti Raymi sempre foi celebrado no fim de junho, quando tem início o solstício de inverno, período em que o Sol está mais distante da Terra. Algumas correntes de estudo indicam que os incas temiam que o astro fosse embora para sempre. Para evitar o que seria o colapso de seu povo, imploravam ao Sol que retornasse.
Além de agradecer, pediam para o astro voltar a fecundar a terra, garantindo o bem-estar dos filhos de Tahuantinsuyo nome dado ao vasto império que se estendeu cordilheira afora, do Equador ao centro do Chile. Após a celebração ritualística, em que se sacrificavam mais de cem lhamas em oferenda a diferentes deuses, começava a época da colheita.
Depois da chegada dos espanhóis, liderados por Francisco Pizarro, a festividade foi proibida pela Igreja Católica. Só voltou à cena em 1942, graças ao esforço conjunto de historiadores, professores e arqueólogos. A princípio, ocorria no dia 21, mas hoje é celebrada no dia 24 (também dia do agricultor, no Peru).
A representação mais simbólica ocorre, atualmente, na esplanada de Sacsayhuamán, a cerca dois quilômetros do centro de Cuzco. O imperador é conduzido numa espécie de liteira do Koricancha (Templo do Sol) ao palco principal. Ali, é realizada uma longa cerimônia de reconhecimento e homenagem ao Sol em que, num dos momentos cruciais, uma lhama terá o coração extraído e ofertado ao deus supremo.
Segundo uma das lendas mais difundidas, os povos indígenas que formaram o império de Tahuantinsuyo acreditavam que o deus Inti (Sol) havia mandado à Terra um casal primordial para as proximidades do Lago Titicaca o que faz lembrar a história de Adão e Eva. Ali, teria começado a primeira grande civilização andina. Cabe a Tiahuanaco, no lado boliviano, esse papel. Suas ruínas também estão abertas ao turismo.


