CUSTOMIZAÇÃO - Arte sobre duas rodas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de abril de 2004
Rodrigo Sais<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Em 1974, uma criança de sete anos apaixonada por desenho encontrou uma figurinha de uma motocicleta Harley Davidson em seu chiclete Ploc. Estava lançada a semente que resultou na atual profissão de Ricardo Machado Capistrano, dono de uma oficina especializada na customização das máquinas mais tradicionais do motociclismo.
Trabalhando em sua oficina em Curitiba, Capistrano não se lembra de quantas Harleys já passaram pelo processo de personalização que pode variar da simples instalação de acessórios até a reformulação total do chassi da moto. A maioria dos pedidos é para pintura de partes das motocicletas através de uma técnica chamada aerografia.
Capistrano lembra que a demanda por desenhos inovadores nas motos começou a partir de 1991, quando o presidente Fernando Collor de Mello abriu as portas do País para as importações e a visão das motos Harley Davidson nas ruas começou a se tornar um fenômeno mais frequente. ''Eu já havia pintado a minha própria Harley, mas na época poucas pessoas estavam dispostas a customizar suas motos. O curitibano sempre teve esse perfil mais conservador: eles pensavam que um desenho novo descaracterizaria a Harley Davidson que eles tinham acabado de comprar'', lembra Capistrano.
O jeito foi começar pelas beiradas, pintando capacetes, jaquetas e camisetas à mão, sem o uso de serigrafia. ''Já tive alguns pedidos inusitados. Muitos pedem para pintar o retrato dos filhos, ou dos pais. O mais interessante que eu me lembre foi o de um dono de canil, que pediu para que eu pintasse quatro de seus cachorros premiados no capacete que ele usava em suas competições de dragster. No final, ele acabou nem usando; ele me confessou que acabou colocando o capacete em uma cristaleira, com medo de estragar a pintura'', diverte-se o customizador.
Atualmente, a resistência dos curitibanos a inovações em suas preciosas motos tem diminuído. ''Ainda existe uma certa relutância, mas é um fenômeno interessante. Quando o curitibano decide mudar, ele faz uma mudança radical. As customizações que têm sido feitas aqui são mais inovadoras do que as que são feitas em lugares como São Paulo e Rio de Janeiro, e não ficam atrás do que anda sendo feito nos Estados Unidos'', afirma Capistrano.
O customizador busca inspiração principalmente em revistas especializadas, mas destaca que na hora o que conta mesmo é o feeling. ''É interessante perceber como as tendências para a pintura das motos seguem as mesmas tendências que vão sendo aplicadas em outros segmentos, como a decoração de ambientes, moda, etc. Agora, por exemplo, o visual mais clean está sendo deixado de lado e estão voltando os desenhos mais definidos, figurativos'', salienta.
O preço de uma aerografia (em média R$ 1,5 mil) pode parecer salgado, mas não parece afastar quem já gastou R$ 50 mil na compra de uma Harley Davidson. ''Os custos vão também para alguns tipos de tinta, que têm que ser importadas. Embora a qualidade da tinta automotiva seja boa no Brasil, ainda não existem marcas feitas especialmente para esse tipo de trabalho'', destaca Capistrano.


