São Paulo, 17 (AE) - Foram mais de 30 festivais em todo o mundo, entre eles o de Veneza. "À Meia-Noite com Gláuber", o curta de Ivan Cardoso sobre o profeta do Cinema Novo, fez uma bela carreira internacional. Cardoso prepara-se agora para novo salto internacional. Mostra no Festival Internacional do Porto (Portugal), que começa no dia 26, seu novo curta - "Hi Fi". O próprio Cardoso define: "O filme é um mergulho profundo, através de fragmentos magistrais da obra do megapoeta Augusto de Campos, na literatura de vanguarda, revendo o subversivo movimento concreto paulista, ainda desconhecido".
Vem polêmica por aí. Ou, pelo menos, provocação. Cardoso cita Júlio Bressane: "Ele diz que, enquanto o cinema brasileiro fica fazendo bobagens como "Zico", eu faço o cinema mais avançado, esteticamente, trazendo o poeta Augusto de Campos para a tela". Em "À Meia-Noite com Gláuber", Cardoso promoveu o encontro de dois personagens-chave da cultura brasileira em todos os tempos: Hélio Oiticica e Gláuber Rocha. Cardoso gosta de dizer que é artista porque encontrou Oiticica. Com Gláuber, manteve sempre uma relação de amor e ódio. Ao juntá-los, Cardoso mergulhou de cabeça na cultura nacional. Oiticica e Gláuber foram tão radicais que praticamente implodiram seus suportes artísticos. Isso os torna próximos do projeto do próprio Cardoso.
"Hi Fi" tem 8 minutos de duração, mas o que menos preocupa Cardoso é a duração. "Essa história de ficar medindo se é curta, média ou longa-metragem é coisa de menino", ele diz. "Menino é que está sempre preocupado com comprimento; para mim, é um filme e pronto". Um filme do qual ele tem muito orgulho. Cardoso explica o título: "É Hi Fi porque tem a ver com o disco dos poemas de Augusto de Campos musicados por seu filho, Cid - mas é hi fi principalmente por se tratar de um caso de alta infidelidade".
Cardoso fez "À Meia-Noite com Gláuber" com roteiro de Haroldo de Campos, que criou textos e poemas especialmente para o filme. "Na hora de filmar de novo, traí o Haroldo com o Augusto", diz Cardoso. "O filme é uma colagem de contratipos riscados, sampleando takes raros para forjar clipes de alta (in)fidelidade, que revelam um longo rastro cúmplice, entre a tradição poética mais viva versus o cinema experimental", resume o diretor.
Cardoso segue, no seu novo filme, a vertente do canadense Norman McLaren, que inventou novas técnicas de animação, desenhando diretamente sobre a película. Mas ele não fica só aí. Cria o que chama de "lance de dados marcados pós-tudo", com participações especiais de Décio Pignatari, Rogéria, Marcel Duchamp, Man Ray, Orson Welles e grande elenco, tudo ao som dos versos satânicos de William Blake, James Joyce, E.E. Cummings e outros malditos "minianti-sonetos de Kid & Kampos".
Para Cardoso, trata-se de um game para cineclubistas, descobrindo novas funções para sequências clássicas e fitas udigrudi, que experimentam uma "inusitada sobrevida". Ele oraliza as pérolas preciosas do CD "Poesia É Risco" (de Augusto e Cid Campos), "que nos instigam a encontrar novas dimensões criativas, num verdadeiro Colidouesccapo de imagens inventadas, chegando ao infinito mágico da linguagem cinematográfica", em que Cardoso afirma, com maiúsculas, que O CINEMA TAMBÉM É RISCO. E ele prossegue: "É um cinepoemabombapopconcreto, que leva o espectador a um surpreendente, filosófico e revolucionário, vertiginoso redemoinho poético/visual/sonoro, onde só o incomunicável COMUNICA".
Crítico implacável dos atuais rumos do cinema brasileiro, Cardoso denuncia o que chama de filmes milionários sem público. Para ele, os orçamentos estão inchados (e recheados de más intenções). Cardoso fez "Hi Fi" com a participação financeira de dois amigos. Não revela quanto gastou, mas diz que, se o filme fosse feito pelas regras dos atuais faraós do cinema brasileiro, não sairia por menos de R$ 500 mil.
Para seu próximo projeto, ele volta ao longa. Vai fazer "Amazônia Misteriosa", sua primeira adaptação de um livro (no caso, de Gastão Cruls, que lhe foi presenteado por Márcio de Souza). Cardoso sempre teve medo das adaptações literárias em vista dos maus exemplos cometidos por cineastas brasileiros.
O livro, de 1922, surpreendeu o cineasta pelo que ele chama de "visão pop do autor". É a volta do vanguardista Cardoso ao trash: na história, guerreiras amazonas nazistas fazem experiências genéticas com crianças e um lobisomem.

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