Curta "Algo em Comum" tem sessão especial amanhã no MIS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de junho de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 29 (AE) - Por que corre o garoto de "Algo em Comum", o curta-metragem de Reinaldo Pinheiro e Edu Ramos que terá sessão especial de pré-estréia, amanhã (30), às 20h30, no Museu da Imagem e do Som (MIS)? Ele começa o filme correndo desesperadamente pelas ruas da cidade. Pára, ofegante, contra um muro de pedra. A câmera aproxima-se, ele sai de cena e só o que fica é a pedra. É uma imagem que evoca o clássico "Os Incompreendidos", de François Truffaut.
A câmera do cineasta francês percorria as ruas de Paris, passava pelo ferro (a Torre Eiffel) e a pedra (as amuradas do Sena) até fixar-se no rosto do garoto - Antoine Doinel, o personagem interpretado por Jean-Pierre Léaud. Doinel é, neste filme, o próprio Truffaut, crescendo marginalizado e sem amor. Talvez a pergunta que deva ser feita seja outra - do que corre o menino? De um inimigo que o espectador não vê, mas intui - a miséria, a indiferença em relação aos garotos de rua. Seja como for, ele termina entrando no salão em que um coral de velhos judeus ensaia músicas do holocausto.
A música, "Dos Kelbl" (O Bezerro), é cantada em iídiche. Fala sobre o bezerro que é levado ao sacrifício no matadouro. A dupla de diretores superpõe às imagens dos velhos aquelas do holocausto, quando os judeus foram brutalmente sacrificados pelo nazismo. O menino e o coral - um momento de encontro. Algo em comum: a dor, o sofrimento. O menino canta, em português, a versão de "O Bezerro". É um filme sensível. Dura apenas dez minutos. O maior elogio que se pode fazer a "Algo em Comum" é que dá vontade de ver de novo.
O filme foi produzido a partir da premiação do Linc, a Lei de Incentivo à Cultura da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Mário César dos Santos Oliveira faz o garoto. Foi escolhido entre mais de cem candidatos ao papel. É esperto, cheio de vivacidade, mas também tem um olhar de quem, embora pequeno, já sofreu. Cinema é melodia do olhar. São belos os olhares cruzados entre o menino e a maestrina do Coral Tradição, Hugueta Sendacz.


