CURSO - A arte de escrever bonito
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de outubro de 2004
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Como seria sua letra se alguém pedisse para você escrever 50 vezes numa folha em branco, a palavra encenar na forma cursiva. O verbete apareceria sempre com o mesmo significado ou ganharia outro, como encerrar ou encerar, talvez, já que o uso diário do computador faz com que uma boa e legível ''letra de mão'' se transforme em raridade, chegando até a prejudicar a compreensão da escrita? Se esse é seu caso, não tema, você não está só. Muita gente abandonou a caneta e o papel para definitivamente adotar o teclado da máquina. Com a vantagem de escolher os mais variados tipos de letras com um clique do mouse.
Mas o que é vantagem para alguns, não desperta o mínimo interesse em outros. Há quem prefira ainda, a boa e velha caneta, com toques requintados que podem transformar a prática da escrita numa verdadeira arte. Em Curitiba, um curso de calígrafo tem levado muita gente para as carteiras do Solar do Rosário, instituição cultural da cidade. A professora do curso, Olga Dufoir, ainda se surpreende com a procura pelo curso. ''O que era para ser uma experiência já dura dois anos'', revela. Formada em biologia, Olga deixou a profissão de professora do Estado para se dedicar à escrita.
Além de funcionar como uma terapia, escrever bem ainda pode ser uma boa fonte de renda, conforme argumenta Olga. O mercado de trabalho está em casamentos, festas, eventos e até documentos. Mas não é apenas a possibilidade de complementar o orçamento que leva as pessoas a procurarem o curso. Muita gente quer apenas aprimorar a escrita e recuperar a prática que o computador está tirando.
''Para aprender a escrever, basta ter vontade, mas o dom também ajuda'', salienta a calígrafa. Ela, por exemplo, tinha uma letra bonita e bem feita desde menina. ''Meus professores sempre me elogiavam e até hoje acontecem situações curiosas por causa da minha letra''. Recentemente ela passou um cheque em uma loja e semanas depois, quando retornou ao estabelecimento, o documento ainda estava lá. ''A dona da loja disse que não teve coragem de compensar porque a letra era muito bonita''.
Mas quem quer se dedicar à prática da caligrafia deve cumprir alguns quesitos. Disciplina é fundamental e também alguns materiais e móveis como uma mesa de luz adequados. Olga conta que alguns artigos são raros no Brasil, mas que algumas importadoras já os vendem. O país que mais tem material próprio para a caligrafia é o Japão, com papéis de gramaturas variadas que encantam até os mais leigos. Canetas especiais e nanquim também fazem parte dos acessórios de trabalho.
O termo ''caligrafia'' vem do grego kallos (beleza) e graphos (escrita). Um curso básico sobre essa arte não dura menos que quatro meses, o tempo mínimo para que o aluno conheça um pouco das regras da caligrafia. ''A caligrafia não admite erros'', diz Olga. Para se aperfeiçoar e aprender os mais variados tipos de letras, no entanto, não há limite. Nas escolas de ensino fundamental, mesmo que a prática seja incluir cada vez mais a informática no currículo, os alunos ainda têm aula de caligrafia e aprendem a escrever bem. Mas no dia a dia, a prática tanto da caligrafia como da escrita está cada vez menos usual.
Há quem não troque, no entanto, o risco do lápis por tecla alguma. O escritor Wilson Bueno, por exemplo, sempre escreveu à máquina. Primeiro as mecânicas, depois uma máquina elétrica e agora não consegue ficar longe do computador por mais de duas horas, conforme disse em entrevista à Folha2. ''Quando levo o computador para o conserto, fico esperando ele ficar pronto'', conta.
Mesmo adepto da informática, o premiado escritor tem um ritual. ''Eu escrevo as minhas páginas diárias, imprimo e sento na minha poltrona para corrigi-las com minha sagrada Mont Blanc'', revela. A prática faz com que ele se denomine um ''reescritor''. ''Eu reescrevo tudo à mão sobre o texto impresso, quantas vezes forem necessárias'', diz. E em letra legível. ''Mas o fundamental é que eu tenha ganhado a Mont Blanc de presente de algum amigo caridoso'', brinca, em alusão ao exorbitante preço da bela caneta.
E é com a caneta de grife que Wilson Bueno está fazendo uma revisão de toda a sua obra (ele escreve à mão até mesmo sobre os livros já impressos), que em breve será lançada pela editora Planeta. Antes disso, porém, a sua mais recente obra ''Amar-te a ti nem sei se com carícias'' vai ganhar uma edição portuguesa, por meio do braço da editora Planeta em Portugal.
Serviço:
- Curso de Caligrafia no Solar do Rosário, em Curitiba. de 20 de outubro, sempre às quartas-feiras. Inscrições abertas. Informações pelo telefone (41) 225-6232.


