CURSO - A arte de contar histórias
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terça-feira, 16 de agosto de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
''Os contos devem ser ditos à noite, se não cria rabo de cutia...''. Com essa brincadeira do seu avô mineiro, que foi um grande contador rural de histórias, a especialista em contos Gislayne Avelar de Matos cresceu acalentada pelo fascínio da tradição oral, que além de marcar a sua infância, acabou por definir a sua carreira profissional, anos depois. Formada em pedagogia, com especialização em terapia familiar sistêmica, pela PUC, foi na França, na década de 90, onde se especializou em arte-terapia e arte-educação que Gislayne teve o seu primeiro contato profissional com a contação de histórias. ''O resgate da tradição oral foi um movimento que começou na década de 70, principalmente na Inglaterra e na França, e já havia muita pesquisa sobre o assunto'', contou. Nesta sexta e sábado, ela estará em Londrina para ministrar o workshop ''Processo Educativo e Terapêutico nas Mil e Uma Noites''.
Na França, era comum as pessoas irem ao teatro para ouvir os contadores de histórias e não demorou para que Gislayne se envolvesse no trabalho da ''Associação Interferências Culturais'', que uma vez por mês proporcionava encontros com contadores de diversos países. ''Esse trabalho era uma forma de prevenção ao racismo. Com a partilha dos contos era possível demonstrar que o que gera o racismo é o desconhecimento do outro e, no final, as pessoas acabavam por descobrir que há mais semelhanças do que diferenças entre nós'', afirmou.
Quando retornou ao Brasil, em 1993, o resgate da tradição oral ainda era tímido por aqui, e resolveu, junto com uma amiga psicóloga, montar em Belo Horizonte (MG) a ''Convivendo com Arte'', uma escola de formação de contadores de histórias e pesquisa de oralidade da tradição oral, com produção de livros e traduções, além de oferecer um curso de formação na PUC. Desde então, ela viaja por todo o país para divulgar o trabalho, que extrapola a idéia de que os contos são ''somente para as crianças''. ''Na verdade, desde a sua origem, os contos eram voltados para os adultos. Eles usam de uma linguagem simbólica que nos ajuda a organizar as emoções, a lidar com nossas dificuldades. Tanto podem ser usados no aspecto educacional quanto terapêutico'', disse.
Na contação de histórias, o enfoque é o resgate da própria palavra. A pesquisadora diz que com o predomínio da palavra escrita houve ''um confisco da espontaneidade'', que acabou por afetar a própria escrita que só é possível ser bem desenvolvida após o domínio adequado da oralidade , e a comunicação, de modo geral.
Nos cursos que ministra, Gislayne trabalha os elementos da voz, ritmo, entonação, silêncio, modulação e o próprio sentimento do contador em relação à história que pretende contar. ''É preciso que o contador tenha consciência que além da diversão, o conto tem a preocupação de formar o ser humano.''
Quanto ao público que se interessa pelos seus cursos, Gislayne disse que são os mais variados, passando por mulheres aposentadas, hoje donas de casa, que se preparam para ser avó ou querem gerar uma nova fonte de renda com a profissionalização do ator de contar histórias, o profissional de administração que vê nas histórias uma forma de trabalhar uma nova linguagem nos treinamentos de funcionários, além de educadores e psicólogos. ''Há uma grande necessidade de reencantar o mundo. Estamos cansados do excesso de realismo e os contos nos levam a outra dimensão'', destacou.
Para ser um bom contador de histórias, ela aponta que o principal é aprender a trabalhar a história em si mesmo, percebendo o que há por trás da linguagem de ficção. ''As histórias nos ajudam a lidar com o humano, a sermos mais tolerantes.'' Depois, ela ressalta que o contador precisa descobrir o seu estilo pessoal. ''Há os mais expansivos, intimistas, filosóficos...'', descreve.


