Numa época em que tanto político está bailando, Curitiba vai entrar na onda com o Fest Dança Curitiba. De 3 a 8 de novembro a cidade abre-se para grupos nacionais e internacionais, com audições, oficinas e espetáculos ao público em geral, que terá oportunidade de aplaudir companhias como a Compagnie Maguy Marin, da França; Última Vez, da Bélgica; Grupo Espacio, do Uruguai; Companhia Dança Contemporânea – CeDeCe, de Portugal, a carioca Regina Miranda e Atores Brasileiros, a paulista Ballet Stagium, o mineiro Primeiro Ato e Guaíra 2 Cia. de Dança.
O evento tem um diferencial básico que o torna distinto de outros festivais – ele surge oferecendo aos participantes o intercâmbio cultural. Enquanto os certames do gênero atuam em caráter competitivo, aqui bailarinos profissionais brasileiros e grupos inteiros terão a oportunidade de se aperfeiçoar nas escolas de dança das companhias convidadas. A escolha será feita através de audições. Os contratos serão feitos diretamente entre os escolhidos e as companhias.
A idealizadora e produtora do festival, Cloris de Souza Ferreira, optou por esta característica didático-educativa, motivada pelo sentido que quer imprimir ao projeto. Esse mesmo direcionamento ela deu aos festivais de Cinema e Vídeo e de Música de Câmera, ambos realizados pela sua empresa Araucária Produções. Nos anos 80 Cloris participou como diretora executiva do Festival de Música de Londrina, em oito edições, e foi co-fundadora do Festival de Música de Cascavel, onde também atuou nos primeiros quatro anos.
Os grupos convidados estarão se apresentando no Guairinha e na Reitoria, para o público em geral. Contando com o patrocínio da Petrobrás, o festival não cobrará ingressos. Estes serão trocados por dois quilos de alimentos não perecíveis, para serem entregues aos carentes. O Ballet Stagium abre a série artística no dia 3 de novembro, no Teatro da Reitoria, às 18h30, com a montagem de ‘‘À Margem do Trilho’’.
O bailado enfoca a população marginal que vive nas ruas das grandes cidades, aprofundando-se o olhar especialmente nas sensações de medo e solidão que acometem essas pessoas. ‘‘O título justifica-se porque são pessoas marcadas de alguma maneira pela violência e isoladas dentro de seu mundo’’, diz a diretora Marika Gidali.
Nesse mesmo dia, às 21 horas, a Compagnie Maguy Marin apresenta ‘‘May B’’, a primeira peça de seu extenso repertório, criada em 1981. Este grupo é considerado um dos mais importantes do mundo na dança contemporânea. A coreógrafa Maguy Marin buscou nas personagens de Samuel Beckett os motivos deste trabalho.
Unindo as linguagens de teatro e dança, ela questiona os absurdos da vida. No dia 4 a companhia traz ‘‘Quoi Qu’ll en Soit’’, peça com cinco bailarinos de nacionalidades diversas – dois chilenos, um italiano, um espanhol e um francês –, que trata justamente da adaptação e falta de raízes dos que moram em outros países.
Na Reitoria, dia 5, a companhia Regina Miranda e Atores Brasileiros apresenta ‘‘Moderato Cantabile’’ e ‘‘Exílio’’. A primeira peça, inspirada na obra de Marguerite Duras, explora as infinitas variações de uma relação afetiva num jogo de imagens cruéis. ‘‘Exílio’’ aborda a relação íntima, terna e intensa de duas mulheres. Enquanto uma é inclinada a esquecer, a outra é inclinada a recordar.
Dois espetáculos estão agendados para o dia 6: ‘‘Pare. Pense. Faça Alguma Coisa...!’’, com o Guaíra Cia. de Dança, às 18h30, no Teatro da Reitoria; e às 21 horas, no Guairinha, com o grupo Última Vez, do coreógrafo Wim Vandekeybus. O G2 colocará em cena um estudo coreográfico, assinado por Tuca Pinheiro, que explora os momentos de silêncio e reflexão dos bailarinos.
Considerado um dos espetáculos mais surpreendentes dos últimos anos, ‘‘In Spite of Washing and Wanting’’, do coreógrafo belga Vandekeybus, ganhou o prêmio Choreographic Work Award 1999, no Monaco World Dance Award. Quatro atores e oito bailarinos – um deles, cego –, mais a exibição de um filme curta-metragem, além da música de David Byrne, mostram ao público a exploração da mente humana.
Dia 7 tem o Primeiro Ato no Teatro da Reitoria, às 18h30, e no Guairinha, às 21 horas, a apresentação do Grupo Espacio, do Uruguai. A companhia mineira criada em 1988, demonstrou desde o início vocação para o cruzamento da dança com o teatro. O espetáculo ‘‘Desiderium’’ coloca em questão os desejos, que levam o ser humano a uma sensação ambígua – ao mesmo tempo que o desejo incita à decisão, ele também se nutre da carência.
O Grupo Espacio não detalhou o espetáculo que trará a Curitiba, mas há quatro anos vem tornando cada vez mais marcante sua atuação. Ele integra à dança o teatro, o canto e técnicas circenses. A característica de seu trabalho permite que os artistas se apresentem com a mesma desenvoltura desde grandes teatros até ao ar livre.
A Companhia Dança Contemporânea (CeDeCe), de Portugal, encerra a temporada, dia 8, no Guairinha. Num mesmo espetáculo, a platéia verá quatro espetáculos diferentes, prometem os bailarinos. Começa com o bem-humorado ‘‘Trio Tá Ká Tá, de Iolannda Rodrigues; em seguida vem ‘‘The path one must follow or not’’, de Sónia Rocha; o dueto ‘‘Serenade’’, de Vasco Wellenkamp e termina com ‘‘Paradoxal piece’’, de Sávio de Luna.