Curitiba será 'Capital de Cultura', apesar dos eventos estarem em baixa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de outubro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A crise no mercado cambial está deixando a Fundação Cultural de Curitiba em alerta. A maior preocupação é que a alta cotação da moeda na casa dos R$ 3,70 interfira na programação dos eventos internacionais agendados para o próximo ano, quando a cidade vai ostentar o título de Capital Americana de Cultura. O título já pertenceu a Mérida (México, 2000), a Iquique (2001) e este ano foi concedido, às pressas, para Maceió, no Ceará. Em 2003, Curitiba dividirá a nomeação com a Cidade do Panamá. O título será entregue oficialmente no próximo dia 21 de novembro, concomitante à inauguração do Novo Museu, no Centro Cívico.
Trata-se de uma espécie de homenagem concedida pela organização não-governamental Capital Americana de La Cultura, de Barcelona, na Espanha. Para recebê-la, qualquer cidade com mais de 100 mil habitantes e que pertença a um dos 35 países da América pode se candidatar, desde que tenha em sua agenda eventos culturais expressivos. Em contrapartida, a ong oferece à cidade vencedora uma ampla cobertura da programação durante o ano. Por isso, recebendo o título, a fundação espera atrair grandes projetos culturais, além de incrementar o turismo, os investimentos externos e projetar artistas locais.
O primeiro evento da série é a Oficina de Música, que acontece em janeiro. Não é nenhuma novidade, já que a oficina está na sua 21 edição. A diferença é que para o próximo ano, a instituição havia manifestado interesse em internacionalizar a oficina, convidando um número maior de professores e artistas estrangeiros. Com a alta do dólar, a fundação já admitiu baixas na agenda do evento.
''Não há dúvidas de que o valor do dólar influencia na programação, já que os eventos internacionais dependem de transporte aéreo e de carga e os cachês são pagos em dólar'', explica o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Cassio Chamecki. Para driblar essa barreira, a fundação já trabalha com algumas alternativas. A primeira é contar com as influências do diretor da parte erudita da oficina, o oboísta Alex Klein.
Ele se vale dos contatos pessoais que fez ao longo da carreira internacional para convidar os professores e músicos que participam da oficina. ''Nós também trabalhamos com um cachê inferior, com um valor mais negociável'', explica Chamecki. Para isso, a fundação aposta no prestígio e tradição da oficina como um evento com fins educacionais. ''Mesmo assim pode haver uma redução de custos'', diz, preferindo não adiantar o que pode ser cortado ou remanejado. ''Ainda é muito cedo'', observa.
Para Chamecki também é precoce mensurar as baixas que os outros eventos agendados para integrar a programação da Capital Americana de Cultura vão sofrer. Além da programação anual, outros projetos estão sendo planejados para atrair a atenção estrangeira. ''Serão três grandes eventos'', adianta Chamecki.
O próximo, agendado para o segundo semestre de 2003, será a mostra de artes visuais, que está sendo provisoriamente chamada de Megaimagem. É um evento em substituição à Bienal de Fotografia, que deveria acontecer esse ano e foi adiado. O Megaimagem vai reunir a fotografia e a gravura e na medida do possível deve integrar um grande número de obras de artistas internacionais.
O terceiro evento ainda está sendo mantindo em sigilo pela fundação, mas algumas programações são candidatas, como a inauguração da Capela do Colégio Santa Maria como sede da Camerata Antiqua de Curitiba, a entrega da Casa Hoffmann como um centro de estudos sobre dança e movimento, a melhoria da infra-estrutura do Moinho Novo Rebouças e as restaurações do Palacete Wolf (sede da fundação) e do Paço da Liberdade (atual Museu Paranaense) para servir como unidades administrativas e também abertas a atividades culturais.
A fundação também pretende abrir novos editais para apoiar projetos de artistas locais em diversas áreas. Mas no que se refere ao orçamento anual, o título não vai conferir um teto maior para a instituição. Para viabilizar uma programação atrativa, a fundação terá que contar com parceriais na iniciativa privada.
''Mas de qualquer forma, a capital pode crescer muito com esse título'', estima Chamecki. A estrutura da organização está presente em cerca de 90 países. A ong Capital Americana de la Cultura recebe apoio da OEA (Organização dos Estados Americanos) e mantém um acordo com os meios de comunicação internacionais, entre eles a rede Antena 3, com sede em Madri, que atinge 20 milhões de espectadores. Uma parceria com a Discovery Channel também está sendo estudada. Vai ser difícil chamar a atenção de tanta gente.


