Dizem os músicos de jazz que São Paulo e Rio fazem uma imersão na música nos dias que antecedem e quando se realizam as edições do Free Jazz. Curitiba pela primeira vez entra na festa, com a ampliação do evento para outras capitais. Serão somente dois dias - 18 e 19 - mas deverão movimentar o Canal da Música, que receberá as estrelas como Wayne Shorter e o brasileiro Hermeto Paschoal.
Ao contrário da maior capital do País, Curitiba é uma cidade onde o jazz tem força, independente do modismo dos festivais. A opinião é compartilhada por alguns dos nomes mais conceituados do meio, como o baixista José Antonio Boldrini, o baterista Endrigo Bettega e o pianista Jefferson Sabbag.
Boldrini, um dos mais entusiastas, garante que nem mesmo São Paulo tem a vida jazzística encontrada na capital paranaense. Depois de morar um ano e meio na paulicéia, ele se sente com autoridade para avaliar o centro de lá e o de cá. ‘‘Se São Paulo tiver três casas com bom jazz é muito. Curitiba tem mais que isso’’, afirma. ‘‘Não só na faixa instrumental como no canto’’, emenda.
Com um cenário desses, a vinda do Free Jazz é uma espécie de reconhecimento às atividades aqui desenvolvidas. Era o que faltava para evidenciar a cidade e seu veio jazzístico. ‘‘Temos feito movimentos importantes, como as Oficinas de Jazz nos anos 80, que tanto contribuíram para o enriquecimento dos músicos e do público. Abrimos o Bar Capelle no peito: toda segunda e quarta-feira tem jazz e ele lota. No Original Café tem um espaço interessante’’, enumera.
Um ano atrás Boldrini, o baterista Tiquinho e o pianista Fernando Montanari foram convidados a tocar no setor de alimentação do Shopping Crystal. ‘‘O shopping queria algo de classe, então os instrumentos tinham que ser acústicos.’’ O projeto era para dois meses. Estão lá até hoje, três vezes por semana. ‘‘Curitiba está se transformando num centro de música de nível. Este é um bom momento e tende a melhorar ainda mais’’, aposta.
O pianista Jefferson Sabbag herdou o gosto musical do pai, o também pianista Gebran Sabbag, nome que desperta respeito e reverência para quem entende da arte. Com 15 anos de carreira, Jefferson é da opinião que a luta desenvolvida pelos músicos durante todo este tempo foi como semeadura em solo fértil. Uma nova leva de artistas está surgindo - são adolescentes entre 18 e 20 anos interessados em aprender os meandros do som.
Esta é uma arte que exige dedicação, muito estudo e um bom instrumento, comenta Sabbag. ‘‘Temos um jazz compatível ao do Rio, e melhor que o de São Paulo, que é mais tradicional’’, continua. ‘‘Aqui fazemos um som mais moderno’’. O público acompanha esse ritmo. ‘‘Hoje ele está muito mais consciente; como toco na noite muitas vezes pedem temas complicados. É um sinal inequívoco de que sabem o que querem.’’
Seu parceiro Mário Conde, que com Sabbag animava nesta semana a noite do Café Curitibano, observa que o mais importante neste momento é o músico ocupar seu espaço para manter o público cativo. A platéia está crescendo, motivada por vários fatores, incluindo-se aí um programa especializado na Rádio Educativa. ‘‘A gente sente o reconhecimento quando as pessoas vêm falar conosco, sem que a gente as conheça. É um bom sinal’’, acredita Sabbag.
Para o baterista Endrigo Bettega falta espaço para a arte jazzística, e se os bares estão se abrindo para esse som, é fruto da insistência dos profissionais. Se ela não é mais popular a causa está na falta de acesso do público à música. ‘‘Precisamos de apoio oficial para poder incrementar o trabalho’’, comenta.
Um acontecimento de grande importância citado por Bettega e por quase todos os artistas do meio aconteceu recentemente em Cascavel, durante o Festival de Música. Sob a batuta do saxofonista Helinho Brandão, entre outros professores, foi criada a Cascavel Jazz Band, formada por cinco profissionais e 20 amadores.
A sessão aconteceu numa igreja superlotada, para uma platéia entusiasmada com o que ouvia. O espetáculo foi tão bom que um registro feito nessa noite poderá se transformar em CD. ‘‘Foi uma sessão sem pretensão’’, diz Bettega.
Sobre o Free Jazz na cidade ele vê como um evento de importância, mas lamenta que ‘‘nenhum músico paranaense’’ tenha sido convidado para fazer a abertura das duas noites. ‘‘Aqui sobra qualidade e falta oportunidade. É uma pena, mas quem sabe no futuro mude esse quadro’’, diz, esperançoso.
Helinho Brandão, o saxofonista chamado por alguns fãs de ‘‘a alma do jazz em Curitiba’’ - responsável pela reedição da ‘‘Oficina do Jazz’’, agora sob o nome de ‘‘Muricy Jam Session’’, promovido pela Secretaria da Cultura - aplaude a vinda do Free Jazz para a cidade, mas tem algumas ressalvas. ‘‘Falta uma característica de jazz entre nós, seja nos locais de apresentação, seja entre os músicos.’’
Apesar das casas noturnas estarem se abrindo a ele, não basta ser um bar para que rolem as sessões jazzísticas ou as famosas jam sessions. ‘‘Tem que ser uma mistura de palco e bar, com toda estrutura necessária. É preciso que haja respeito pelos músicos e pela música’’, receita Brandão.
É um jogo onde se envolvem desde o proprietário do bar até o ouvinte, como acontece não só nos Estados Unidos, como em grandes cidades européias. Mas como está, já é um bom sinal:
- No geral está melhorando a cada dia. Curitiba está aprendendo a crescer.

ONDE OUVIRMauro FrassonMario Conde diz que o público de jazz está crescendo em Curitiba: ‘‘As pessoas vêm falar com conosco, sem que a gente as conheça’’Zeca Corrêa Leite

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