Depois de atravessar o cipoal da burocracia, uma nova Ong (Organização Não- Governamental) curitibana estará surgindo e terá um nome que fica entre o pomposo e o curioso: Sociedade Brasileira das Pessoas-Livro. A organização deverá reunir voluntários apaixonados pela leitura que levarão esse prazer às pessoas impedidas de ler.
Chamadas de pessoas-livro, elas formarão uma rede e se infiltrarão nos mais diversos escaninhos da sociedade, como os presídios, hospitais, asilos, centros de atendimento às pessoas especiais, abrigos para crianças e adolescentes, escolas, faculdades.
O projeto é uma aspiração de Marlene Rodrigues, psicóloga, pedagoga e jornalista que enfatiza: ‘‘A idéia não é apenas criar uma rede de solidariedade levando a cultura, mas também uma dinâmica política de respeito à vida e de sensibilização da sociedade para o valor do livro como força de libertação’’.
Se a ignorância gera impiedosas amarras, a literatura ilumina e amplia os caminhos. ‘‘Cada livro recria a aventura humana de maneira singular e espiritual’’, comenta Marlene. Ela não está sozinha nessa empreitada. Ao instalar o projeto, semana passada, no Canal da Música, a jornalista teve a satisfação de falar para cerca de uma centena de ouvintes interessados. ‘‘Creio que a Ong não ficará somente aqui em Curitiba, mas vai se tornar uma biblioteca humana viva, emocionada, apaixonada e mostrará a cada instante que ler é um ato de rebeldia, de liberdade. A cada leitura que se faz, o que se vê é uma reinvenção do leitor e do ouvinte’’.
A criação legal da organização ocorrerá nos próximos dias. Um advogado está cuidando dos registros em cartório de títulos de documentos e nos ministérios da Justiça, da Educação, do Trabalho, da Fazenda, Receita Federal e Prefeitura. Só para esta primeira fase é necessário perto de R$ 1 mil, calcula Marlene.
A previsão é de que dentro de dois meses a Sociedade Brasileira das Pessoas Livro estará apta para iniciar seu trabalho. Voluntários já estão trabalhando para captação de recursos pois, nos planos de Marlene, o ideal seria a locação de espaço que permitiria a formação de uma grande biblioteca e também um local para a reunião dos membros da sociedade para discutirem os programas de leitura de acordo com os locais visitados.
Marlene imagina homens-livro lendo Guimarães Rosa nas prisões, enquanto nos hospitais as obras poderiam ser de Fernando Veríssimo ou Eduardo Galeano, breves contos e crônicas. ‘‘Parto da crença que a grande competência humana é para aprender, aprender sempre. A vida se concretiza na aprendizagem’’, afirma.

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